Decepções e encantamentos facebookianos

As máquinas trazem agitação para cultura. Não são neutras, pois dependem do uso, das escolhas que os humanos fazem para colocá-las em circulação. Não provocam expectativas homogêneas. A multiplicidade está no mundo, apesar dos infantilismos, da preguiça mental de muitos. Os que controlam o poder não deixam de apreciá-las. Os computadores continuam estendendo seus domínios e se entrelaçam com privilégios e resistências. Não adianta cultivar medos. No século passado, a televisão, o telefone, o rádio causaram polêmicas incríveis. As novidades aceleram os desejos consumistas, atiçam hábitos culturais que tomam conta do cotidiano. Há quem fuja dos fascínios do mercado, os inimigos das chamadas revoluções tecnológicas.

A desconfiança ocupa lugares na gestão da vida. Somos animais sociais com uma longa história. Tudo parece absurdo, mas temos capacidade de transformar e inventar modos de convivência. Estão aí as redes sociais desafiando teorias conformistas, amedrontando quem exalta reflexões profundas. Temem que o supérfluo amarrem nossos projetos. Os perigos existem.Eles não sairão das histórias. Portanto, as máquinas conectam-se com a política, facilitam a consolidação de técnicas de persuasão. O saber não cai do infinito, nem dança no ritmo da inocência. Quem pensou que a ciência acabaria com as desigualdades mergulhou em turbulências nada agradáveis.

Curtir, compartilhar, comentar. Quem frequenta o facebook trabalha com os significados desses verbos. Não se precipite. Eles acompanham as andanças que a máquina propicia. Envolvem milhões de pessoas e as mais inusitadas revelações. Estica os territórios da intimidade, lembra amarguras, quebra monotonias. Dividem. Há quem não curta nada. Outros preferem a solidariedade dos amigos. Criam-se corporações, tribos, agressividades, narcisismos. Parece o ressuscitar do feudalismo em plena era da informatização. Os disfarces são velozes, pois o mundo pede urgências, contaminado pelas epidemias de novidades. Conheco, desconheço, inquieto-me, entedio-me. O ritmo é imprevisível, pois a contemplação quase não tem permanência. Forma-se a sensação de que, no vaivém, também se diluem sentimentos e memórias derrubam preconceitos.

Construir um tribunal de julgamento para cada invenção que surge é desgastante. Não há necessidade de formalizações. As academias produzem seminários, articulam pesquisas, fundam especulações. Nas conversas do dia a dia, as opiniões se propagam despidas de manipulações teóricas. A afetividade possui  malabarismos. Escrevo um comentário, marco uma fotografia, critico um ato do governo, declaro amor infinito pela democracia. Tudo se encontra nas páginas apressadas do face. Para que condená-las, rapidamente, sem animar a compreensão e suspender a respiração ofegante? Será que nos noticiários da imprensa não há notícias violentas ou crônicas sociais rasas?

Somos, ainda, muito ligados ao dualismo. O cinema e as novelas não cansam de mostrar a luta do bem contra o mal. Gostamos das transferências e levamos nossos paixões para as telas. Um bom assunto para os psicanalistas embarcarem e identificarem neuroses que vão e voltam. O facebook é recente e não sabemos se os entusiasmos permanecerão. Precisamos de não viver solidões sufocantes que exijam curas com drogas lícitas. As máquinas, de uma maneira geral, sacodem as sociabilidades. O que faremos diante de tantas coisas descartáveis é uma imensa dúvida.

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2 Comments »

 
  • Zélia Gominho disse:

    Antonio Paulo, parece “transmissão de pensação”. Esses dias eu estava, justamente, observando esse elemento descartável dos posts no Face; estava me dando um tédio! Você deu asas aos meus pensamentos, e ajudou a amenizar o meu tédio. O Facebook é como o Eremita do Tarô de Marselha: um velho vestido á grega com uma lanterna na mão a procura de respostas…indagações…solidões…companhias…motivações…piadas…
    Abraços!

  • Zélia

    Gostei muito do seu texto. As invenções trazem esse vaivém que nos deixa em suspense. Para que tanta coisa?
    abs
    antonio paulo

 

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