Desencantos: a saga cruel dos refugiados

Há muitas amarguras e insanidades. Os anjos devem estar aflitos, desconfiando da própria existência. Numa sociedade construída com violência não há como acreditar em julgamentos equilibrados. Parece que as culturas estão tontas, o desencanto domina a aldeia global. As moradias viajam. Estão dentro do corpo? Milhões de pessoas não sabem o que significa otimismo e lutam para garantir a necessidade mínima. Mas as contradições não deixam que se busquem alternativas. Há um suicídio cotidiano que acelera a crueldade. A morte caminha comandada por estratégias de poder. Não é delírio, nem recordações dos desmandos do pecado original.

Os refugiados tentam respirar. Querem soltar-se das opressões, desfazerem-se da loucura da fome, do desprezo, do descontrole. Reuniões são marcadas, entre as potências, para criar disfarces. Se a concentração de riqueza se mantém e os suspiros das bolsas de valores abalam o mundo , como imaginar um solução, um descanso para o sofrimento? O espetáculo da miséria ganha manchete, vídeos coloridos, lembram os horrores já vividos das colonizações. Há uma ameaça de que o caos predomine com força e a sociedade desgoverne-se. Ruídos e silêncios se misturam com profecias enfeitiçadas pela grana de deuses desconhecedores do sagrado.

O sistema nos ensinou a contar moedas e assaltar privilégios. Alguns oram para se livrar da culpas, ajoelham-se para reverenciar a hipocrisia. Na confusão geral e, muitas vezes, fabricada, nem colaboram com a consolidação dos ressentimentos e o comércio de tecnologias encomendadas para segurar o poder das minorias. A construção é complexa, trouxe projetos para preencher incompletudes. Os sonhos de igualdade não foram todos assassinados. Os pesadelos, porém, são assustadores. Não esperam pela noite. Expandem a venda de drogas, de poluição, de vinganças, de mercadorias descartáveis, de vazios que apodrecem as veias. O vírus da dissonância se amplia.

Não adianta contemplar as fotografias do que está distante e afirmar que tudo pode ser resolvido. Os refugiados não se localizam em esquinas especiais. Correm pelos territórios mais comuns ou mais estranhos. Quando a memória ferve não dá para esquecer as bombas atômicas, os preconceitos raciais, a continuidades do passados. Quem configura o tempo não é a rapidez do progresso. Melhor é duvidar do que visualizar máquinas que definam autonomia e socialização. A aldeia global vive uma embriaguez cínica e administrada. Esconder o abismo é negar os desenganos e exaltar as teorias que elegem a mesquinhez e o narcisismo como espelhos prediletos.

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