Desequilíbrios, dissabores, contrastes, celebrações

A tragédia atinge a sociedade e toca nos seus pontos mais internos. Faz parte das dificuldades de conter forças ou mesmo do desgoverno de muitas regiões. Por mais que avancemos, nas conquistas científicas, as lacunas são imensas. Além do mais, elegemos consumismos desvairados e busca de privilégios como objetivos constantes.As desigualdades mostram-se imensas e a sociabilidade ameaçada. Nada de apatias ou de disfarces, diante dos  desconfortos. O desastre superou, porém, todas as expectativas.

As chuvas e o rastro cruel das hecatombes. Lá estão, São Paulo e Rio de Janeiro, numa situação limite. As imagens constrangem. Existem formas de evitar-se que os desequilíbrios sejam tão comuns ? Eles se repetem e  demancham planos de muitas famílias. Muitas mortes, desesperos, futuros estraçalhados. Soluções de emergências são acionadas e as coisas são remendadas. Imaginem que as vítimas das enchentes, do ano passado, em Pernambuco, ainda encontram obstáculos para se recomporem.

Nessas horas, aparecem os milhões guardados e os discursos cheios de dores e de amor ao próximo. Há acontecimentos que fogem, sem dúvida, a um controle mais sistemático. Não vamos agitar culpas, nem condenar inocentes. Mas nem tudo pode ser justificado, pois certas medidas devem ser tomadas, com antecipação. Depois, o desequilíbrio perturba a emoção e desfaz as esperanças. Para que tanto desenvolvimento, tantas promessas vazias ? E o peso das urgências? É comovente ver o esforço de anônimos na luta para salvar as pessoas. É um exemplo fabuloso de solidariedade.

Nossa sociedade se alimenta de contradições. As televisões, que exibem novelas e comédias, ajudam a esclarecer a dimensão arrasadora das chuvas. O noticiário é importante para fortalecer os protestos e o desejo de que haja mais atenção com a administração das cidades. A cobrança merece espaço, como também a ação para minimizar as perdas. O coletivo move o mundo, somos seres limitados, porém não devemos nos abraçar com os fracassos e jogar no lixo as utopias.

A cultura é a construção de significados. No mundo contemporâneo, eles possuem complexidades e cores múltiplas. Os desmantelos surgem, abalam, atravessam histórias de vida, frustram. No entanto, os contrastes continuam assustando. Nem tudo apodreceu. O choque coloca dúvidas sobre certas  políticas, porém desperta, com mais rapidez, os grupos dirigentes. São mais de quinhentas pessoas mortas, num cálculo incerto.

No Rio de Janeiro, enquanto as águas derrubavam patrimônios e desfaziam sonhos, com anos de história sendo fragmentados, com tristezas, perplexidades, angústias dominando cidades, celebrações traziam alegrias e animavam os torcedores do Flamengo que viviam outro ritmo. Ronaldinho foi apresentado oficialmente. Exaltações, entrevistas, pronunciamentos, pagodes, bandeiras. A Gávea risonha e poderosa. Nada contra a festa, apenas não custa lembrar, como tudo se faz e se destrói inesperadamente.

Em cada esquina do mundo, inscrevem-se fragilidades e passamos, por elas, às vezes, com a maior indiferença. Séculos de convivência estreita, mas também de descuidos permanentes.O mundo se abre, sobretudo, para a consagração dos interesses individuais. Quando os dissabores e o teor da tragédia se avolumam, o coletivo é exaltado. Precisamos dos descontroles para medir os lugares da cultura? Quando os senhores do apocalipse soltam suas vozes, pedimos, desamparados, colo. Insegurança, sem remédio?

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2 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    É isso aí, Antonio,
    O remédio para a insegurança não pode depender apenas da adesão solidária dos homens e mulheres de boa fé! A solidariedade precisa, fundamentalmente, expressar-se, de forma cotidiana, em políticas públicas, na ética cidadã dos gestores e da sociedade em geral. Esse desejo coletivo depende do nosso voto, dos nossos princípios, do nosso compromisso com a justiça social, e, da nossa fiscalização permanente. É importante nos lembrar “que tudo se faz e se destrói inesperadamente”. Por isso, o tempo da solidariedade urge e a força do coletivo move o mundo. Como seria se não fôssemos incompletos, limitados? A desgraça seria bem maior….
    Por isso não podemos esquecer-nos da grande utopia do viver humano: “o que fizermos apenas por nós mesmos morre conosco. O que fizermos pelos outros e pelo mundo permanecerá imortal.” (A. Pike )
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    Apesar do coletivo ter força, as políticas são muito voltadas para o movimento do capital. Por isso, as tragédias ganham dimensão apavorante.
    bjs
    antonio paulo

 

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