Despedidas do início de 2012: os abalos de sempre?

O mês de janeiro se despede. Faz parte do calendário das esperanças. Há  simbolismo no trato com o tempo. Esquece-se a continuidade, movem-se os desejos. Parece que existe uma magia guardada no recomeçar. Onde fica, então, o entrelaçamento, entre o presente e o passado? Agimos soltos, sem o peso da memória e das circunstâncias? Não dá para descartar as conversas entre os bordados do tempo. A história não é desconexa, embora seja impossível esgotar os seus imensos descontroles ou desenhá-la numa cartografia imóvel. Por isso, há tantos desencontros. Na cultura, a fixidez é uma imposição, corta as possibilidades, esconde as transgressões.

Cerca-se janeiro de expectativas. Divulgam-se mudanças repentinas, abrem-se sorrisos, o milagre é encomendado. Assanha-se certa euforia. É fundamental não alimentar, apenas, as interpretações dos grandes fatos. Valorizam as manchetes, porém o cotidiano constrói os hábitos. Nada se refaz de forma inesperada. Nem tudo se mostra para uma observação segura. Mas como arquitetar certezas perenes no mundo da incompletude? Janeiro traz, também, a repetição, a violência, os desgovernos, a diluição de alegrias. As metáforas são companheiras dos simbolismos, pedem sensibilidade para não cair no festejo de verdades ocasionais.

Não precisa muito esforço da inteligência. O Rio de Janeiro não sossegou. Muita chuva, prédios desmoronando, TVs buscando entrevistas sensacionais, perplexidades gerais, intimidades devassadas pelo desespero. Os acidentes acontecem, contudo os sinais de falta de responsabilidade do poder público agravam a situação. Há inúmeras justificativas. Não convencem. Vão investir no carnaval, com força, para desviar as atenções. É a chegada do mês de fevereiro, com suas homenagens aos deus Baco. Pão e circo, de novo. A grana aparece, a sociedade se amolece no transe dos blocos, tragédias ficam no lixo e suas vítimas choram a solidão. Não é segredo que o individualismo é hegemônico. Estamos no território do capitalismo.

O exemplo do Rio é síntese. As águas de janeiro se espalham, como também os aumentos dos impostos e das tarifas que afetam a coletividade. Se há protestos surge a polícia. Depois, há simulações. Negocia-se o que nunca é realizado. As passagens aumentam furando o orçamento dos que mais padecem com as desigualdades. E o problema da terra, da ocupação do solo urbano, da reforma agrária, que continua atravessando a história? Basta observar os confrontos no Paraguai e em São Paulo. A repressão se mantém em nome da propriedade privada. Há desculpas pelos excessos, com um cinismo elaborado.

Nem só, por aqui, as coisas desandaram. Na Síria, a sede de bater nos   inimigos faz criar reações internacionais a um ditador  imponente, cheio de ares inabaláveis. Falar no sonho democrático é uma ameaça, um devaneio. Os conflitos registram desacordos seculares, onde as crenças religiosas ganham complexidade. Cada cultura celebra suas tradições. O Recife não é Tóquio, nem a Índia é a Colômbia. As diferenças tocam o trabalho do historiador, alterando análises. As idas e vindas da economia e da política promovem aflições. A Espanha passa por um sufoco incrível. Obama luta para não perder as eleições. A Europa se despedaça com os gastos financeiros. A interpretação da vida é um lugar de pertencimento.

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2 Comments »

 
  • DIÓGENES disse:

    E fica-se a sensação de continuidade, 2011 partiu, e onde todos esperavam um 2012 diferente, esperança uma palavra que anda há tempo enferrujada, não esta existindo, não se percebe singularidade dos fatos, os meses vão se passando, rompe-se o ano e as coisas serão as mesmas. Como foi falado só se altera as análises das ocorrências.

  • Diógenes

    O diálogo entre continuidade e mudança está presente, mostrando as idas e vindas da história.
    abs
    antonio

 

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