Deus e o mundo de um bilhão de famintos

 

Não tenho  dúvida que Deus inventou o mundo. Usou a magia das palavras. Fez uma obra de complexidade infinita. Desconheço qual o sentido de tanta criatividade. Sobram questões. Elas não são, apenas, minhas. Faltam respostas, incertezas se acumulam, o futuro é enigma permanente. Não acredito na história do paraíso. Vale como uma boa ficção. Institui o pecado original de maneira simbólica e envolve a maçã com a serpente. Deus não se preocupou com os detalhes da criação. Portanto, Adão e Eva enquadram-se nas mitologias mais remotas que correm o mundo.

Temos uma população de 7 bilhões de pessoas. Um número grandioso e desafiante, pois passado e presente se misturam, mas nada de configurar qual será a arquitetura da próxima manhã. A surpresa não foge do cotidiano, mesmo com o trabalho exaustivo da sociedade veloz e ambiciosa. Deus descansou e eternizou o seu descanso. Adotou uma mágica única. Não optou por acompanhar o que fez. É, sobretudo, um espectador. Não se assusta. Sabe que temos ilusões e costuramos autonomias escorregadias. Onipotência, onisciência, onipresença. Virtudes de poderes inesquecíveis. Assim, a humanidade visualiza Deus em pleno século XXI.

Desculpem o exagero. Nem todos admitem o que falei. Há Ocidente e Oriente, católicos e evangélicos, franceses e bolivianos,  africanos e russos, brancos e pretos, politeístas e budistas, petistas e tucanos… A diversidade comanda qualquer raciocínio, dificulta qualquer conclusão. Meu texto tem particularidades e não quero  punir minha subjetividade, nem a dos outros. Cada um produz seus encantos e refaz suas amarguras. Meu desejo é consolidar um registro. Não consigo abandonar as perplexidades, nem ficar me equilibrando em linhas retas.

Sempre acatei a ideia de Nietzsche  que a verdade é curva. É base dos meus sentimentos e das minhas reflexões. Não sei bem explicar as razões, mas também considero que excesso de explicações não resolve nada. Confunde. Quem ama não escreve tratado para justificar seu amor, nem  constrói teorias científicas para afirmar a química dos corpos. Há uma instabilidade na atmosfera do cosmos que possui continuidade, por isso que Deus fez o mundo e sossegou. Estamos na pós-modernidade,  a tecnologia traz desgovernos, o absurdo não sai de cena, tudo pode ser especulado em folhas de papel de brancuras firmes e palavras desconhecidas.

A linguagem permite que a cultura se recomponha. Não despreza o anseio de traduzir novidades. Não precisam gramáticas e dicionários extensos. A população do mundo cresceu no meio de muitas conversas e muitos toques. Não há intervenção divina na cultura. Ele a contempla, com paciência de quem espera o apocalipse. O que mais choca não é a discussão sobre  a criação do mundo. Jogamos com a imaginação e as suposições aparecem, para alguns como brincadeiras, para outros com a força de crenças inabaláveis. Há laboratórios secretos que estudam as origens da vida e gastam fortunas. Ninguém é ingênuo. Saber e poder possuem intimidades. Diante das pesquisas, dos espantos, dos infortúnios, o que dói é a presença da desigualdade, apesar de toda sofisticação da cultura. Talvez, seja a síntese maior da desaventura divina.

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4 Comments »

 
  • Zélia Gominho disse:

    Oi, Antonio. A medida que lia seu texto me lembrava do filme A Árvore da Vida, com Brad Pitt. Uma sessão, para mim, não foi suficiente, o filme ainda ressoa; é preciso assistí-lo mais de uma vez, mesmo porque, sua linguagem é outra, silenciosa e sensorial. Assistiu?

  • Valerio disse:

    Antônio,

    então o sétimo dia de Deus é longo, e dura até o Apocalipse?

    Haverá então o “eterno retorno”?

    … fiat lux…

    e até breve

  • Valério

    Pois é. O que nos espera?
    abs
    antonio paulo

  • Zélia

    Não assisti, mas tenho boas referências. Vou ver.
    abs
    antonio

 

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