Deus e Sartre, a existência e a multiplicidade

É muita coisa para se ver. Os olhos não dão conta da multiplicidade ampliada do mundo. Tudo troca de nome ou reinventa outras simbologias. O importante é deixar você perplexo, sem saber o que promove tanta confusão e abusa do resto da sua vontade. O pior: é uma regra sem exceção.Começa pela família onde o afeto se diluiu em nome do trabalho e da acumulação de objetos. Não interessam os encontros, a conversa em torno da mesa, o abraço no início do dia.

Nãos  esqueça as TVs, nem tampouco do carro do ano, com cheiros afrodisíacos que estabelecem hierarquias estranhas. Uma sedução incomensurável com gosto de globalização. A metafísica foi se esconder em algum saneamento público. Não somos, os objetos existem em nosso lugar. Já pensou Jean-Paul Sartre, o ícone francês, diante dos artifícios da cibernética? Com certeza, destilaria uma situação limite inesperada e se escreveria para Simone de Beauvoir, no Facebook, buscando interações virtuais. Eles viveram outros tempos e afetos.

Quem se exalta com a multiplicidade deveria ficar atento à fragmentação. A quantidade de novidades estimula os descartes e a risca a filosofia de todos os amores cartesianos. A questão é escolher, cotidianamente, o que jogar no lixo. Nada de colecionar ou organizar arquivos. A metodologia científica sofre ataques contínuos. Qualquer dúvida remete a uma consulta ao Google, com a ajuda espiritual de Steve Jobs. Não se assuste com as diferenças. Elas impulsionam, paradoxalmente, a manutenção da mesmice, fazem todas as formas se parecerem.

Não é brincadeira. O lúdico tem seu valor, mas não domina as ambições dos poderosos. A nostalgia surge porque suportar o presente tornou-se um peso. Melhor é imaginar que é possível morar em construções flexíveis, sem elevadores automáticos. Talvez, assim, os desejos de redenção caminhem por estradas mais bucólicas, longe da soberania do asfalto e do ruído das motos. Por mais que mecanizem o estar-no-mundo não nos ausentaremos das  amarguras. A automação não sossega o desejo. Pode ser exagero, no entanto as configurações dos céus e dos infernos estão na intimidade maior do inconsciente coletivo.

O mundo cogita sobre o apocalipse, porque as certezas são especulativas ou criação das crenças religiosas. Portanto, é um disfarce que não convence, apenas alivia algumas angústias. Há problema que, simplesmente, sacudimos para a onipotência divina. Ela responde e transforma a agonia de alguns em compromisso com a salvação. No meio das tantas andanças pelas histórias, a ficção confunde-se com concretude do toque apaixonado. A perda de valores e de fronteiras está anunciada, desde os primórdios da modernidade. É o império da velocidade que não curte quietudes.

No auge da filosofia de Sartre, falava-se em projetos e na força do marxismo. As polêmicas apontavam estratégias políticas. Havia a presença do antropocentrismo, o consumismo não estava tão desnorteante. Os intelectuais acreditavam em transformações e  apostavam em generosidades. O filósofo escreveu um livro muito lido: O existencialismo é um humanismo. Frequentava passeatas, fermentava polêmicas e denunciava autoritarismos. Circulava como uma estrela. Pertencia a uma constelação que se apaga.

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2 Comments »

 
  • Emanoel Cunha disse:

    Até que ponto a construção de nossas relações com a história estão sendo dissolvidas dos seus valores e sentimentos?

    Realmente fica essa questão de compreendermos se estamos regredindo ou avançado para o desenvolvimento da raça humana, pois o que se percebe na atualidade é que as inversões dos contrários estão, exatamente, postas no cotidiano da demasiada sociedade consumista que além de se vender, compra sua vontade de viver e reconstruir os presságios da nossa civilização.

    Abs

  • Emanoel

    A história possui muitos contrapontos. É impossível ter clareza dos caminhos que ela segue.
    abs
    antonio paulo

 

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