Deus, Nietzsche e a magia

 

Contam que existia um Deus mágico, solitário, que morava num deserto sem fronteira. Da areia vermelha criou o homem e da costela do homem, a mulher.Não lhes deu permissão para que levitassem. Criou também as leis, a culpa, o pecado e a simulação do perdão. Muitos séculos, depois, transformou tudo que havia no mundo humano em mercadoria. O mundo tornou-se uma vitrine labiríntica e Deus vestiu-se de uma melancolia esquista. Atordoado, conservou com Nietzsche sobre a morte e a relatividade da história. Sentiu o peso das suas criaturas, sem avaliar que a magia tinha a poderosa fórmula invisível de nudez cínica, mascarada, descartável.

Lamentou-se que as criaturas, que dominava, haviam inventado outros deuses e reconheciam o absurdo de fantasiar um paraíso. Nietzsche não vacilou, nem se escondeu. Segredou a Deus que Deus era, apenas, uma imagem de memória confusa, sufocada pelo tempo. A magia era a síntese do exílio. Podia significar o absoluto e, o nada. Agora, porém,  havia, no deserto, um circo, exclusivo, de artistas equilibristas, fechado com as chaves que não possuía. Deus vivia o juízo final e não sabia. Desfez-se , sem alarde e sem julgamento, duvidando do infinito e do acaso. Dançava e ria para desaparecer, na metamorfose “para além do bem e do mal”.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>