Violências e disfarces históricos

A aceleração do ritmo da história quebra tradições, mas deixam vazios. Não se vive o presente sem se criar expectativas sobre o futuro. Ficar preso ao momento é consagrar a depressão e anular o ânimo. Mesmo que as notícias inundem o cotidiano e assustem com novidades opressoras, não há como não buscar alternativas, reivindicar, denunciar. A história não existiria se houvesse um conformismo uniforme. O lugar da rebeldia não se ausenta da convivência. Nem tudo é resolvido, perdem-se ilusões, os conflitos permanecem, porém há movimentos, ruídos, desfazeres.

Na construção das expectativas, inventaram-se sociedades harmoniosas, movidas pelo afeto e divisão das riquezas. Mas esse futuro não chega, frustra o otimista. As razões do iluminismo não se acenderam como tanto  exaltavam seus defensores. A democracia está encoberta, as disputas por mercados é cínica, os interesses concentram poder. É difícil celebrar euforias quando a fome, o preconceito, a desigualdade não mudam de lugar. Há uma sofisticação nas invenções tecnológicas indiscutível que salva situações de desespero. No entanto, os mecanismo de manipulação também estendem sua sede de dominar.

Não nos livramos, portanto, das ambiguidades. A modernidade criticou instituições, diluiu conservadorismos. O moderno, contudo, ganhou muitos significados. Como ressalta Italo Calvino, não existe linguagem sem engano. As reflexões ajudam a esclarecer dúvidas e lançam possibilidades de fugir de certos impasses. O mundo intelectual festeja teorias que, na prática, fracassam e não conseguem decifrar porque persistem tantas lacunas. Os escorregões não demolem, contudo, as dissidências. Nada é absoluto. As fragilidades apontam as brechas que também são instituintes.

O medo continua, os conceitos transformam concepções de mundo, os divertimentos seduzem, as indústrias investem nos mais estranhos objetos, a memória nos lembra que o vivido não deve ser desprezado. Sempre insistimos que a pressa rouba lucidez e provoca equívocos. Muitos se envolvem com as informações e reforçam a superficialidade, naturalizam os acontecimentos, não observam que há permanências que ameaçam a continuidade da convivência social. A autonomia tornou-se um bem esquisito e a estupidez agride com malabarismos astuciosos.

Se as armas abastecem as guerras e acirram as rivalidades, se os monopólios lucram com os jogos do poder, é fundamental desvendar como certas brutalidades se espalham, com apoios disfarçados em acordos diplomáticos. Não é exagero alertar para os comprometimentos, nem tampouco mostrar que a violência provoca a morte. As bombas atômicas simbolizam um momento histórico cruel. Na luta política,  buscam-se até justificativas científicas para firmar agressividades e, muitas vezes, exterminar inocentes. O ir e vir das histórias não é um quadro decorativo, mas um espelho com desenhos de responsabilidade coletiva. A dor é um sentimento que transcende a solidão.

 

PS: Voltarei com novas postagens no dia 17 de 8

 

 

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