Disfarces do consumo, afetos desfeitos

Os festejos trazem o gosto de amarguras escondidas. A sociedade se movimenta sem saber que perdeu solidariedades e estraga sua imaginação na busca de consumos. Simula confraternização, visita lojas, se distrai com fogos, inventa amigos, passeia por shoppings desenhando paraísos. Uma fábrica de disfarces multiplica as astúcias do final de ano. Há quem aposte que tudo será resolvido e sacode a sensatez na lata do lixo. Fica no delírio do espetáculo superficial, na sedução das propagandas, na embriaguez de uma grana passageira.

Nem todos curtem tanta ansiedade preparada para ampliar alegrias anunciadas pelo capitalismo que estende fantasias, mas não inibe as desigualdades, É esperto na produção de objetos, tergiversa para não se mostrar absoluto. A celebrações concentram grupos e aliciam privilégios. São duvidosos os perfis da felicidade, porém são insistentes os jogos das ilusões. Há quem não observe a força das fantasias entrincheiradas nas vitrine brilhantes.

São as acrobacias das relações sociais que não cansam de estimular culpas e pecados. Tudo possui significados. É a andança da cultura, com suas nostalgias, seus contos de fada, seus olhares iluministas. Assim passa o tempos, se acedem os afetos, se disfarçam as agonias. Para isso fomos feitos, sem selo de segurança, no meio de deuses que mudam de templos. As complexidades não se exaurem, os festejos não deixam de existir. A dúvida permanece ativa num turbilhão que não tem regras fixas e arquiteta moradias em todos territórios. Não se atormente. Há desertos e sedes. Converse com a solidão e sinta a sua escuta. Ela tem magia.

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1 Comment »

 
  • Rivelynno Lins disse:

    …Papai Noel, velha figura estática e cheia de presentes ou Jesus Cristo, bebê, nascido no sujo e no imundo que conseguiu sobreviver a exclusão social da sua época? Comprar no shopping ou pagar o dízimo numa igreja evangélica? Votar num governo progressista de inclusão e emancipação da pobreza ou num governo de concentração de renda para os ricos? Dá uma esmola ou oferecer um emprego? Chegaram as festas de final de ano de 2019, quem são as pessoas felizes e quem são as amarguradas diante de um ano extremamente difícil com desemprego e subemprego elevados? Esperanças renovadas pela fala de um pastor hipócrita e violento que estimula a compra de armas de fogo ou a desesperança do aumento da pobreza que atinge patamares alarmantes? O que é o natal para vc? É o consumo? É a solidariedade? É o afeto? É o isolamento? É um momento que precisa ser reinventado ou tudo faz parte de uma literatura melosa e decadente sobre práticas amorosas não efetivadas de fato? Outras formas de vivenciar o Natal ainda é possível? Talvez uma que lembre a força de uma criança que conseguiu seguir em frente, trazendo uma mensagem de paz para lembrar que ainda é possível acreditar na força da vida, mesmo em situações de pura desesperança…

 

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