Dos amores possíveis no mundo da velocidade

                

A vida requer convivências. É preciso compartilhar. Sem isso, as sociabilidades se fragilizam, o descrédito no outro se concretiza. Dividir é o verbo da vez. Difícil é conjugá-lo, na sociedade de consumo, mas não custa tentar. Cuidado para não ser vítima de uma invasão de isolamento e ter de buscar ajuda no malabarismo do Prozac. Se opto por me esconder termino  desconhecendo-me, por dentro e por fora. Não  fique remoendo a memória, navegando no barco da saudade. Aumente sua cesta de sobrevivência. Flua, escute  desejos, borde sentimentos. Nada deve ser jogando no lixo, porém nem tudo vale a mesma coisa. Não estamos, numa loja deslumbrante, de produtos chineses, onde os simulacros brilham como constelações.

O equilíbrio é instável, não esqueça esse paradoxo. Qualquer dúvida, sonhe com Aristóteles. Não se aborreça com os incômodos. É melhor que as apatias. Ruim é desconsiderar os afetos e achar que um café expresso transforma a  tarde numa deliciosa aventura. O fio estendido sobre o tempo balança, anunciando que ninguém está livre de quedas. Aproveite o texto e faça das palavras um leito. Sacuda qualquer poeira. Contagie-se com a alegria anônina. Programar as diversões é continuar o estresse, viver cada dia como se fosse uma segunda-feira.

No quadro geral da sabedoria, desconfie de quem se sente soberano. Não estamos livres das idealizações. O real é cru e azedo.Portanto, não se arme de exclusividades. Aprecie os contrapontos, o jazz de Miles Davis ou os romances de Paul Auster. Crie-se no tempo, como uma invenção e não como uma obra acabada, procurando um museu de sepulturas monumentais. Não estranhe o que Baudrilard afirma: O signo que preside a separação das coisas é o mesmo que as reúne. Pois o que divide é, ao mesmo tempo, o que separa e o que se troca. Dos  lados da separação, as coisas permanecem, no entanto, inseparáveis, e o que mais diverge, contudo, se reencontra.

A confusão é compatível com a mistura. O mundo é  de  improvisações lúdicas. Existem religiões e ciências, tolices e genialidades. O importante é olhar o espelho, distraidamente, sem observar as rugas ou a cor do batom. Acorde no meio da noite, conte até mil e adivinhe o nome de quem mais ama. Pense em cristais, na cena final d’ O último em Paris e no tamanho do político que se envolveu com a corrupção menos escandalosa. Distancie-se de todas as agonias. Dilua-se na fórmula do feitiço de Branca de Neve.

Os amores não pedem velocidade, mas sossego. Estão longe de qualquer sociedade que poupa tostões. Ame o que você profetiza, a formiguinha que se afogou no doce de calda. Lembre-se dos dinossauros, flutuando no cosmo como estrelas. Imagine. Vá além das arquiteturas moduladas, desfie as verdades,  faça a leitura de um conto de Borges. Desacredite em que não gosta de mentiras e desligue a televisão no meio da corrida de fórmula 1.  Tudo vem da troca impossível. A incerteza do mundo é que ele não tem equivalente em parte alguma e que ele não se troca com coisa alguma (Baudrillard).

 

 

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4 Comments »

 
  • karla vieira disse:

    O difícil é encontrar esse equilíbrio, mesmo ele sendo instável. Acho que a busca por ele é mais válido e possível, sem a necessidade de realmente encontrá-lo.

  • Karla
    A busca traz descobertas. Isso é bom e atiça o sentimento.
    abs
    antonio

  • Thiago Augusto disse:

    Professor,

    Gostei do tom imperativo deste texto inspirado. Não ter pressa nesse mundo veloz é complicado e, no mínimo, desafiador… mesmo para os mais excêntricos. Mas refletir sobre isso já é um bom começo. Programar as diversões é realmente triste. Mais triste ainda é ser estranhado ao ousar ser diferente. Mas ousar é importante, assim como ouvir Miles Davis e John Coltrane.

    Abraço!

  • Thiago

    Com sossego podemos ter outra convivência. A competição tira o fôlego da solidariedade e difunde o cinismo.
    abs
    antonio paulo

 

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