Ernesto Che Guevara: a dimensão das imagens

        

O tempo passa, mas não é demolidor. Guarda memórias e fixa imagens. Há as ruínas, muito coisa se perde e relações sociais são desprezadas. As contagens da vida e dos seus dias mostram que acumulamos sentimentos, mas não destruímos experiências e sabedorias de forma absoluta. Vivemos, com os outros, tecendo  culturas e nostalgias. A sociedade não submerge de vez. Precisa respirar, inventar trilhas e futuros. Sem os diálogos, a mudez entristece os devaneios. Um fio colorido interliga a superfície à profundidade. A felicidade têm desequilíbrios. Não costura infinitos endurecidos. Cruza-se, constantemente, com  limites.

As imagens estão por aí. Podem ser simples, vulgares, sofisticadas. Não ficam escondidas. Desfilam pelas esquinas, adormecem nos asfaltos, invadem telas e paredes. Algumas ganham fôlego. Che Guevara, argentino, guerrilheiro e soldado da famosa Revolução Cubana do século XX,  tinha coragem e se colocava contra as opressões capitalistas. Vislumbrava outras práticas sociais. Não sossegou. Suas ações foram polêmicas. Não há consensos sobre o heroísmo das suas indas e vindas. Lutou por mudanças, seguiu inconformismos, porém conviveu com muitas frustrações. Não era da burocracia, nem se articulava, sem confrontos, com seus companheiros de Revolução. Um deles é o todo poderoso Fidel Castro.

Cuba é símbolo. Arrasta ódios e admirações. Desafia teorias e mantém controles condenados por defensores da democracia. Não se trata, aqui, de consolidar julgamentos. Épocas se vão, governos se desfazem, povos se rebelam. A figura de Che Guevara não se diluiu. Quem assistiu ao filme Diários de motocicleta (foto), de Walter Salles, acompanha parte das suas aventuras e desejos de consertar o mundo. Deixou sua terra, para conhecer outras maneiras e costumes. Observou que a humanimidade possuía dissonâncias e optou por levantar armas. Queria soluções, contrapunha-se às acumulações vazias. Mesmo ligado às armas, não anulou as reflexões. Formou pensamentos considerados perigosos pelos adversários mais ferrenhos. No entanto, seguiu adiante.

Viu a barba crescer e o fragmentar-se das  estratégias. Seu labirinto era complexo. Para muitos, sua utopia ameaçava e recebia condenações. A política é campo de poder e tensões. Transgredir faz história, obedecer e organizar, também. Não há destinos traçados para sempre. Talvez, a ideia de destino seja mais uma especulação religiosoa, configuração disfarçada de apocalipses. Cuba sofre com pressões internacionais e com problemas internos. As dificuldades são visíveis. A socialização não atingiu o que se esperava. Derrubou antigos autoritarismos, mas enfrenta outros. Os dualismos tornam-se terríveis. Anjos e demônios ocupam cenários e provocam conflitos. A sorte e o azar balançam fugas e desesperos.

 Como é sutil visualizar verdades e escolher éticas ? Qual é o tamanho das resistências ou das ousadias? Cuba não sai da berlinda, embora as negociações estejam mais presentes. Mesmo com os embates políticos, há  espaços para fundar outros olhares e não descansar as possibilidades. Para onde todos esses choques caminham é motivo de pesadelos. Mas a figura de Ernesto continua sendo destaque  nas estampas de camisas, nas biografias, nos projetos políticos. Muitos nem se lembram do que ele combatia. Usam vestes básicas, com desenhos de Guevara e broches com suas frases famosas. Estão fora de qualquer assanhamento que mexa a cabeça. Entendem-se com a moda, preguiçosamente. Consomem até o perfume das imagens.

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2 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio, belos os textos que você produziu neste final de semana, em meio às histórias, às palavras, à sonoridade, às imagens!
    Eles revelam que “a magia não desapareceu do mundo” e sua reinvenção “faz parte do cotidiano” e “o torna mais suave”.
    Muito bom, trazer para perto da gente os “encantos de Octavio Paz”, “a sabedoria e a experiência de Pamuk”, “a inquietude de Calvino”, a sensibilidade de Rezende e de tantos outros “mestres que seria impossível acolhê-los na plenitude”.
    Mais bonito ainda é reconhecer que “sem aconchego, o sangue frio congela o coração.”
    Como não embarcar no “oceano de Ulisses que guarda os cantos das sereias e prepara a narrativa primordial” ?
    * * *

    Difícil também, não se emocionar com os pensamentos, a luta, as reflexões, os exemplos incansáveis de Che Guevara em prol do Ser e do viver humano.
    Sua vida merece um canto libertário maior. Um canto que nos mobilize a transgredir, a fazer história, a querer traçar destinos mais promissores.
    Vale a pena Antonio, deixar aqui (de um revolucionário, para outro) uma música de Carlos Puebla que muito me emocionou, quando estive em Cuba (1997). Ela nos traz o tamanho da admiração cultivada pelo Comandante que soube endurecer sem perder a ternura!

    “Hasta siempre comandante Che Guevara”

    “Aprendimos a quererte
    Desde la histórica altura
    Donde el sol de tu bravura
    Le puso un cerco a la muerte.
    Aquí se queda la clara,
    La entrañable transparencia,
    De tu querida presencia
    Comandante Che Guevara.
    Tu mano gloriosa y fuerte
    Sobre la historia dispara
    Cuando todo santa clara
    Se despierta para verte.
    Vienes quemando la brisa
    Con soles de primavera
    Para plantar la bandera
    Con la luz de tu sonrisa.
    Tu amor revolucionario
    Te conduce a nueva empresa
    Donde esperan la firmeza
    De tu brazo libertario.
    Seguiremos adelante
    Como junto a ti seguimos
    Y con Fidel te decimos:
    Hasta siempre comandante.
    Aquí se queda la clara,
    La entrañable transparencia,
    De tu querida presencia
    Comandante Che Guevara.”

    Hasta siempre!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    Grato pela seu colaboração e seu incentivo. É sempre bom repartir os sentimentos e as visões de mundo. A sociedade é muito limitada a regras e competições. Os encontros ajudam a multiplicá-la, com outros sentidos.
    bjs
    antonio paulo

 

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