Eros e Psique: mitos, lembranças, aprendizagens

As celebrações vestem-se de todas as cores. Somos animais sociais, mas traçamos cartografias desiguais. Vivemos com valores que flutuam. Não podemos afirmar que o futuro será exitoso ou que cairemos em frustrações fatais. As coisas se balançam e a instabilidade não cede. Há momentos de mais no sossego, porém fixar destinos é impossível. Mesmo quem desconfie das religiões, não se afasta dos mitos. Não dá para subestimá-los com fantasias divertidas, sem quaisquer relações com as aventuras significativas. Não penso assim. Sou um navegador  que aprecia oceanos que tem mistérios. Não importa as astúcias inventadas. É preciso compreender que os labirintos não têm uma única forma, para que as incertezas sejam leves.

Nas histórias dos mitos, costumo viajar sem pressa. Há procuras estéticas, sentimentos inesperados, desejos de superação. Quando escrevo, sempre, me atiçam as lembranças das possibilidades, das imaginações dos antigos na criação dos exemplos, nas concepções de seus mundos. Cada cultura abastece-se com sua mitologia. Escolho o que mais conheço, sem pestanejar, nem assanhar dúvidas. Estou sempre encantado com Prometeu, com as tergiversações de Édipo, com a dignidade de Antígona, com as estratégias de Ulisses… Não faltam dizeres. Sísifo também um lugar especial, suas sabedorias e desesperos não merecem esquecimento.

No tempo das celebrações, tudo ressurge com formas diferentes, mas tocando no coração ou nas sedes contemporâneas de obter privilégios. As festas não escondem que o mundo do consumo é soberano. Não visite as ruas, nem as moradias. Quem encontrar ânimo dê uma circulada nos shoppings e contemple multidões com ares de Napoleão Bonaparte. Como capitalismo multiplica seus disfarces e anula as perdas? Como o cotidiano se refaz em segundos redefinindo afetos coisificados? É uma crítica particular, de quem se abraça com o recolhimento, sem problemas ou desmantelos. As buscas nunca seriam iguais, pois os corpos têm perfumes e químicas inquietas.

Mas como Eros e Psique estão metidos nessas divagações lúdicas e passageiras? Ninguém despreza o amor ou omite sua força. Ele é uma invenção. Aparece quando tudo parecia sombrio ou seguro. Não foge das ambiguidades. Tem persistências. As andanças de Psique são obstinadas, riscam dificuldades, suportam ilusões, lidam com a inveja. Mudamos ou pintamos nossos sentimentos com cores pós-modernas? E a paixão não perturba mais que o amor, amplia o delírio e não recusa o impossível? O mundo virtual não é dos deuses do Olimpo, porém não custa olhar as metáforas e fazê-las atuantes.

Os mitos não morrem. São narrativas que se descobrem e usam mantos. Infiltram-se pelos saberes, provocam os poetas. Alguém não observou a força de Eros? Não precisa conhecer os detalhes da mitologia. Tanta se fala em erotismo ou na ausência dele. A invasão das mercadorias também transformar o significado das palavras. O amor não é um símbolo estático, síntese de todos os encontros. Eros e Psique ainda entram nos corações. Consagram encantos. Mostram que os sentimentos não sucumbiram diante da sofreguidão dos negócios. Os sonhos e os mitos guardam  lugares. Sentem-se inatingíveis. Nada com manter as imaginações soltas, submergir com fôlego e dialogar com o outro.

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