Cervantes e Agualusa: escritas do mundo

Miguel de  Cervantes escreveu uma obra que atravessou tempos. Não se acanhou com as mudanças nas análises linguísticas, nem com as teorias literárias. Seu personagem, D.Quixote, é fundante. Seus moinhos de vento, suas quimeras, seu parceiro de vida são inesquecíveis. Tudo para conquistar o amor de uma dama. Quem desafia algo tão sublime? Cervantes concebe o mundo e nomeia particularidades.  Não se furta a brincar com as circunstâncias, longe da mesmice. Inalcançável. Firmou uma literatura que não cabe em classificações. Está abraçado com as sombras do eterno, embora dialogue com a história e os eventos da sua época.

Cada um arquiteta sua transcendência, deslocando-se  nas suas viagens  subterrâneas. A transcendência exige mistérios, não precisa de voos externos ou juízos finais. Basta um sentir-se ausente do corpo, num instante que não se repete. Um pacto com os arcanjos. Talvez uma fuga, mas nunca uma desistência. Há, sempre, o retorno. Ele estende o tamanho das diferenças entre o medíocre e o ousado. A subjetividade tem ares vadios, porém olha os outros com paciência. O chamado grande escritor não esquece a forma dos movimentos. Julga poder desenhá-lo sem riscos, animando as palavras e suas invenções.

Cervantes relacionou-se com os acordes iniciais da modernidade. Não escapa da ironia e observa a ambiguidade das instituições. O passado tem suas representações ativas no presente. D. Quixote anda procurando como costurá-las com seus devaneios. Testemunha a simultaneidade na síntese terna da sua triste figura. A morte fica perplexa diante de certas profundidades. Ela teme complexidades ou o sagrado que o humano carrega no paraíso terrestre. Assusta-se com as utopias ou com as metafísicas que desequilibram as onipotências divinas. Cervantes, Sancho Pança, D. Quixote sobrevivem no imaginário do Ocidente, derrubando fronteiras, soltando preconceitos, estreitando laços culturais.

Outros mais contemporâneos seguem trilhas de inquietação.  Não desprezam a incompletude e a transformam em ficção, abandonando os retratos de fidelidade. José Eduardo Agualusa traz malabarismos na escrita que jogam fora os espetáculos de sociedades velozes e consumistas. Seu tom é dissonante e desconfiado, mas muito distante da superfície. Conecta-se com as aventuras de D.Quixote, pois não é cavaleiro de um único tempo ou lugar. Vai e volta, com uma sutiliza quase imperceptível. Interpreta, como detetive que se espalha na magia da sensibilidade. Não perde a leveza, mesmo quando a corda se estica e anuncia a fragmentação. Cultiva a multplicidade e a fascinação pela beleza. Seu mito revela segredos do feminino, onde o encanto é sinal de transcendência.

Agualusa vive o tempo do agora, sem aprisionamentos. Tem fôlego e não suspiro. Leia O vendedor de Passados. Não anule a plasticidade das situações, não se resuma nas inibições cartesianas. Os percursos convidam à surpresa, mas não, ao susto. Neutralizar a fantasia é pensar na perpetuação das conservas vazias do Big Brother. Há simulacros de completudes autoritárias. O que move é a falta e o desfiar o destino, para bordar um manto profano. A literatura nos leva a extremos, porque esmiuça e incendeia os modelos. A literatura é fogo, porque estica a memória e reconstitui as ruínas.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

4 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    A literatura nos leva a mundos imagináveis e inimagináveis. Quando leio, as imagens que se formam a partir do texto são únicas, exclusivas, minhas. E essa sensação faz a mente fluir, aguçando os sentidos nas viagens onde os livros nos levam.

  • Gleidson

    A imaginação favorece a escrita e traz outros mundo. Isso é importante, para sair do lugar comum.
    abs
    antonio paulo

  • Spinosa disse:

    Excelente, como sempre! Nos fazes ir a mundos passados, nos evelas ao extraordinario e nos surpreendes com o ordinario!

  • Vanessa Spinosa
    Grato pelas palavras. Apareça sempre.
    abs
    antonio paulo

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>