Fellini, a sensibilidade, a lógica, o improviso

 

Federico Fellini já se foi. Deve estar morando em algum paraíso flutuante. Gosto de acreditar em tudo o que estimula a fantasia e me apresenta uma visão mais fascinante da vida e do mundo, ou mais próxima do meu modo de ver, disse cineasta. Tenho profunda admiração pelos seus filmes. Meu coração sente-se contemplado pelas andanças de Fellini no mundo da sensibilidade. Não vou afirmar que é o mais genial de todos. Estabelecer hierarquias é escorregadio. Apenas, fico no território da emoção e do diálogo, marcado pela transcendência e pela busca de não cair na mesmice. O pensamento inventa lógicas, mas a luta pelo poder científico costuma, muitas vezes, define-se pelas linearidades. Joga fora as possibilidades  de deslocar o tão consagrado real. Não quero ordenar o mundo. O pouco que tenho a dizer, tento fazê-lo com meus flimes, que me divirto em realizar (Fellini).

Vivi o privilégio de, na adolescência, frequentar o Cine Coliseu. Ele me apresentou imagens que me seduziam. Foi lá que conheci Visconti, Antonioni, Kurosawa, Bergman, Godard e tantos outros. Saía do cinema, com olhar renovado, acreditando que o mundo não se resume as cartografias do concreto. A arte nos desacomoda, quando nos solta e surpreende. O cinema acompanha a contemporaneidade, possui suas fortes ligações com a pintura e a fotografia, nos traz exemplos de aperfeiçoamentos técnicos. Não despreza, porém, as múltiplas experiências que formam os espelhos da cultura.  Não há concepção absoluta que  manipule todas sinuosidades da beleza. A travessia histórica da estética e  suas controvérsias desadormeceriam Aristóteles, Hegel, Nietzsche, Adorno, Benjamin…

Fellini é um arquiteto sublime da fantasia. Não se ligava em dirigir filmes, apenas, com as grandes estrelas. Ariscava no improvisar. Escolhia atores e atrizes desconhecidos do público. Produzia outra atmosfera, tão diferente e lúdica, que reinventava o expectador. O  humano se espreguiçava com seus pecados e suas voracidades. Assista a Entrevista e contemple sua saga de trabalho e suas infindáveis alegorias. O tempo se aconchega com a simultaneidade, foge dos elogios ao progresso. Brinca, ironiza, fertiliza ambiguidades. Há uma universalidade que atravessa o mundo,  misturada com as singularidades da hesitação e da tristeza.Tudo se parece e se conflita. Não há uma preocupação perene de firmar verdades. 

Amarcord, sua mais discutida obra, talvez seja uma síntese de metáforas ou um labirinto de abismos largos. Nem tudo é transparente. A neblina te coloca na clandestinidade, te esconde dos outros, é algo inebriante, torna o homem invisíviel: não te vêem e portanto tu não estás (Fellini). A racionalidade não sobrevive sem abalos. A interpretação é a abertura para autonomia. O desencantamento se dá para quem se distancia da magia e renega o  ir além do que se mostra. Nos seus filmes, Fellini não se acanha diante das incertezas e das tragédias que compõem as travessuras da vida. Talvez os meus filmes não sejam nem tão longínquos nem próximos, estão comigo, são eu mesmo, não têm necessidades de verificações anuais, de controle (Fellini). Duvida? Então, viaje na ternura e solidão de Ginger e Fred.

PS: O texto é dedicado à turma de Pós-Graduação em História das terças. Tivemos o prazer de assistirmos , juntos, a Ginger e Fred. Depois, a conversa nos colocou numa atmosfera afetiva e solidária. Há, sempre, espaços para quebrar a rigidez e a mesmice. Grato.

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10 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Fellini foi um dos grandes cineastas do século XX. Em frente às suas lentes, a poesia era obrigatória.
    Abs.

    Gleidson

  • Gleidson

    Com certeza, Fellini fez uma arte singular.
    abs
    antonio paulo

  • Monique disse:

    Puxa,diante desse texto me senti uma “criminosa”.
    Isso porque já ouvi falar muito de Fellini, porém nunca assisti uma obra sua.O que parece um crime, diante de tanta beleza.
    Estou perdendo algo imperdível.
    Irei correr atrás disso, com certeza.
    Obrigada!

    abs

  • Monique
    Não deixe de ver Fellini. Vale muito.
    abs
    antonio paulo

  • Airton disse:

    Obrigao prof. Antonio Paulo pela dedicação desse belissimo texto à nossa turma da pós. As suas aulas nos coloca no mundo de sensibilidade assim como Fellini e está sendo possivel ver uma outra história e fugir dos amontoados de citações de perder o fôlego: tudo em nome da verdade. Fugir desses long-plays arranhados, sem fluxos, cansativos, lineares, histórias sóbrias e nos avizinhar do estranho, do inverso, da transgressão, do humano.
    Abraços
    Airton

  • Airton

    Nada como a boa companhia. Gosto de conversar, trocar experiências. Estou feliz em fazermos isso juntos. Os encontros da vida valem muito, são dádivas. Fugir das mesmices nos fortalece e traz energia. Fellini é um artista de grandiosidade singular. Merece nossa admiração e foi ótimo assistirmos ao filme com a sensibilidade se mexendo.
    abraços e bom domingo
    antonio paul
    antonio paulo

  • Geovanni Cabral disse:

    Parabéns Tricolor, bonita vitória!! Agradeço pelo texto dedicado a nossa turma. A cada semana esses encontros nos levam a reflexões as mais diversas. Mergulhamos em uma atmosfera de sensibilidades e cada um busca nas suas vidas e leituras interagir com o diálogo posto. As vezes eu sei que tem algo a falar, mas faço conexões com outros tempos. A arte de Fellini é sofisticada, sensível e contagiante. Ginger e Fred é um registro de amor, solidão, a vida deles se cruzam nas artimanhas da memória. O tempo passou, mas não apagou o amor, as lembranças, o gingado da vida. É notório a saudade da juventude e da flexibilidade do corpo apresentada pelos personagens. Ao mesmo tempo lembrava do filme “O amor nos tempo do cólera” baseado na obra de Gabriel García Marquez, um outro registro de amor. Ao mesmo tempo que nossos olhos registram essas imagens, somos levados a pensar nos programas televisivos, a propaganda excessiva, as vulgaridades exageradas, um palco para o capitalismo. Mas diante das críticas, ficamos enebriados por uma mágica de um cinema diferente, de uma arte cinematográfica que só Fellini sabe dar a direção.

    Um abraço amigo!!

    Geocanni Cabral

  • Geovanni

    Os bons encontros dão energia a vida. A magia traz o corte com a mesmice. Vibrei muito com o Santa. Foi a redenção.
    abs
    antonio paulo

  • Rosário disse:

    Professor,

    Emoção, diálogo, afetividade e ternura marcam nossas manhãs de terça-feira. A leveza das leituras, que de tão leves, jamais deixam de adentrar interessantes profundidades. O encantamento das imagens. O ritmo dos falares e dos silêncios. As pausas. A cortina de chuva que vimos descer sobre a cidade. O cheiro do café, inesperadamente preparado. A atmosfera de solidariedade que construímos. Comungar com essa atmosfera nos coloca em comunicação com o personagem de Agualusa. Nas manhãs de terça-feira escrevemos nosso próprio “Milágrario Pessoal.”Os milagres acontecem-nos a cada segundo. São milagres discretos, quiça segretos. São pequenos e grandes prodígios que só acontecem quando ternura e encantamento comungam.

    Abraço

    Rosário

  • Rosário

    É bom que possamos manter boas conversas com leveza. Isso nos traz um saber que ajuda ao encontro.Grato.
    abs
    antonio paulo

 

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