Fellini, as verdades fugidias e os balanços da vida

Muitos me consideram um mentiroso e não se cansam de repeti-lo. Acontece que os outros também mentem; aliás, as maiores mentiras a meu respeito são aquelas que ouvi da boca dos outros... A afirmação anterior é do cineasta Fellini. Toca num tema controvertido. Não passamos sem cogitar sobre a extensão do que fazemos e suas repercussões nas relações socais. Incomoda que percamos amigos, que sejamos mal compreendidos, que os outros não firmem confiança. Também, sabemos que há interpretações variadas dos acontecimentos. As culturas são diferentes, nem mundo globalizado conseguiu-se uma uniformidade indiscutível. Por isso, as fronteiras entre verdade e mentira são questionáveis.

Se a sociedade não vive sem referências, há reflexões, crenças, costumes, regras que atingem a todos. Mesmo com leituras ambíguas, a convivência segue adiante. Os conflitos se dão, porque nem tudo cabe num raciocínio coletivo e dogmático. Precisamos de verdades que nem sempre coincidem com as intimidades de quem mais nos aproximamos. Os caminhos pedem sinalizações. Elas podem ser velozes, porém ficar tateando é um risco crescente. O aumento da população e da complexidade dos saberes trazem mais dúvidas do que certezas. No entanto, as sociabilidades necessitam de amarrações, para que se aprofundem os sentimento e voos da fantasia.

Fellini foi mestre na sua arte. Nunca fez da sua obra a sua salvação. Era irônico e desafiava. Seu lugar na filmografia criativa é destacado e inesquecível. Nós, nas vivências cotidianas, não estamos livres dos problemas dos famosos. Cada um na sua busca, vigiando seus espelhos, recordando tropeços e euforias. Portanto, verdade e mentira acompanham cotidianos, independente do forte pragmatismo que nos tolhe e nos ilude, mas que sacode interesses e promessas de privilégios. Não há como fugir da diversidade. O equilíbrio dialoga com a instabilidade e, muitas vezes, nos balançamos esperando lucidez e coragem. Não adianta entrar no delírio que o determinismo nos garante a eficiência e as conquistas.

Questionamentos percorrem a história. Observar os seus ritmos merece atenção. Viver em Paris, não é viver em Recife, nem em Sorocaba. Os lugares possuem suas configurações. Tudo sofre a influência das comunicações, porém sobra peculiaridades mais resistentes. É inegável que as histórias constroem narrativas que se entrelaçam. Temos algo em comum com os romanos ou com os gregos do tempo de Platão. Não é á toa que buscamos entender seus costumes e admirar a sua arte. A Igreja Católica passou por reviravoltas imensas. Continua, contudo, ocupando espaços na vida social, congregando, estimulando crenças.

As verdades de uma época desaparecem e, às vezes, retornam. Copérnico, Freud, Foucault, Lacan derrubaram formas de pensar, investigaram mistérios, trouxeram encantos e decepções. Os conhecimentos acumulam-se, mas os descontroles permanecem. Muitos se empolgam com a quantidade, nem se concentram no  que há nos desacertos tão presentes e opressores. O velho mito de que o futuro abrirá as portas da percepção para reafirmação de sonhos e paraísos, ainda, fascina. Há discursos que enaltecem a relatividade com a finalidade de camuflar as estratégia de poder. A confusão entre verdade e mentira é um jogo. Atrai, engana, desmantela.

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2 Comments »

 
  • Emanoel Cunha disse:

    Através do texto compreendi que as verdades e as mentiras são questionáveis. Não é a toa que sua configuração na história e no cotidiano, principalmente no seu interior, sempre deixa algumas lacunas a serem interpretadas. Já ouvir de certo autor que “Não vivemos fora da história e muitos menos no mundo das ilusões”.
    O que senhor acha?
    Agradeço atenção
    Abs

  • Emanoel

    As idealizações fazem parte da vida. As fronteiras são flexíveis e temos que inventar nossas ficções.
    abs
    antonio

 

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