Fellini, travessuras, saudades, imagens, efêmero

                          

Contemplar, quando se tem pressa, é uma impossibilidade. Não dá nem para sentir saudade. Os toques constantes dos celulares compõem uma sinfonia atípica. Será que existe ainda o tão portentoso reino humano? Resposta difícil, diante das tantas máquinas que ocupam espaços com volúpia. Mas a paciência é um exercício fundamental. Num cosmos, tão mecânico, o valor do sentimento não poder ser apagado. Esconde o relógio digital, risca o calendário da empresa de seguros e escuta o silêncio do sonho. Assim, a vida está, temporariamente, salva.

Faço esse movimento. Observo, sem inquietude, a folha que cai da árvore balançando-se no ar. Lembro-me de Fellini, o arcanjo do cinema. Várias vezes, assistiu ao seu Amarcord. Beleza, travessuras, irreverências. A fragilidade exposta sem o peso do pecado. Adão e Eva redimidos, soltos no paraíso, escondendo as serpentes num cofre redondo. A poética de um tapete magico desenha as imagens do arcanjo, varrendo  o cotidiano do cartesianismo.

Recordações. O Arrudão cheio de gente alegre com o penta do Santa, parecia que o mundo só tinha três cores. Hoje, a grana dispara, no mercado da bola. Naquela época, o mestre Gradim armava  o time com os meninos da base. Futebol maravilhoso. Não sai da memória o desejo de vitória, os passes surpreendentes e os gols  bem articulados. Nada da amargura da série D. Lá estavam Luciano, Givanildo, Fernando Santana, Ramon e tantos outros. O tricolor fazia a cobra fumar e era temido pelos seus adversários.

Quem pode esquecer aquele lance de Pelé contra o Uruguai na Copa de 1970? E os dribles de Garrincha derrubando seu marcadores em 1958? Tostão jogava com astúcia e inteligência. Deslocava-se, transformava-se em fantasma, tecia sua arte com bordados coloridos. Aquela final de 1970 foi um arraso, como a partida nervosa entre Brasil e Inglaterra. Incomparáveis às partidas do Brasileirão, aos chutões e carrinhos dos beques de hoje. Podiam ter aulas com Mauro, Nílton Santos, Orlando…  Que sonho!

Não pense que há poucos arcanjos vagando pelo mundo. Na literatura, eles caminham em grupo, com se  estivessem ensaiando um balé clássico. Por acaso, já se encontraram com  Italo Calvino, Pamuk, Mia Couto, Paul Auster, García Marquez, Otávio Paz,  Borges num diálogo sobre a solidão e a contemporaneidade? Eles desconhecem os finitos, fazem da morte temas para seus textos, divertem-se com os que fogem das leituras. Por isso, são clássicos. Não cansam, dançam com as palavras entretidos com as músicas de Mile Davis, Chopin, Vivaldi, Chico, Jobim e parceiros de todos os sons.

O mundo é mesmo vasto. Não tem prazo para terminar, mas é moradia também de dissonâncias, hipocracias, corrupções e santos mascarados. É a multiplicidade da cultura. As invenções fustigam a criatividade. Continua valendo o que disse Nietzsche, a verdade é curva. Nada de eleger geometrias de linhas retas,  para explicar as sinuosidades das ousadias. Deixe as histórias circularem e as bolinhas de papel cruzarem os espaços, sem ofensas ou dramas. Cada momento respira seu perfume e não despreza sua preguiça. Correr é fabricar a soberania do efêmero.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

2 Comments »

 
  • vane disse:

    Não pense que há poucos arcanjos vagando pelo mundo……não há messssmo…Há arcanjos vagando a sua volta fazendo um back vocal dos seus escritos….
    bj
    vane

  • Vane

    Você traz uma energia diferente. Quem pode negar que não é também um arcanjo ?.
    bjo
    antonio paulo

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>