Fragmentos da vida, da história, do pensar

         

Freud interpretou os sonhos. Nietzsche demoliu a filosofia de Platão. Marx mostrou as contradições do capitalismo. Michelet seguiu o romantismo nas suas narrativas. Darwin questionou dogmas importantes. São algumas lembranças do século XIX que parecem tão distantes. No entanto, a atuação dos pensadores citados foi uma das bases da modernidade. Suas reflexões abalaram verdades que estavam consagradas. Transformações no modo de pensar a vida que refizeram sensibilidades culturais e feriram instituições ditas conservadores. O tempo passa, porém não se apagam as ousadias. Temos outras questões que estão conectadas  com o passado. Não dá para esquecê-lo. A ruptura nunca é absoluta e os vestígios fundam nostalgias permanentes.

Freud continua discutido. Muitos se inquietam com a suas proposições. Tratou de temas inseridos no cotidiano, no fluir dos sentimentos, derrubando preconceitos e alterando concepções sobre as relações afetivas. Não se negou a investigar suas próprias neuroses. Ficou assustado com a agressividade humana, já no século XX, com a violência das guerras. O mal-estar não se vai da história, pois as competições se firmam e o narcisismo não adormece. As torcidas brigam, as galeras se estranham, os preconceitos raciais permanecem. Freud morreu, mas o mundo não cedeu ao equilíbrio e os contrastes amedrontam. A felicidade, aquela harmonia tão desejada, não se fixa. Somos parceiros da instabilidade.

Nietzsche teve uma vida marcada por amarguras. Suas ideias ganharam espaço na pós-modernidade. Criticou a filosofia ocidental e não poupou Sócrates. Considerou o cristianismo uma religião de fracos. Ao afirmar a morte de Deus, questionou o passado e afirmou a crise de valores. Queria mudanças, fortalecer a coragem, construir reflexões diferentes. Muito incompreendido, chegou a ser considerado um inspirador das façanhas de Hitler. Sofreu com doenças que o atacavam com frequência. No entanto, Nietzsche não está no armário dos pensamentos vazios. Há sinais inegáveis de que lançou sementes. Mostrou o naufrágio, porém, ainda, inquieta e ilumina.

Marx estudou e viveu as explorações do capitalismo. Não foi superficial. Muniu-se de teorias, acenou com a necessidade de revolução e influenciou multidões. Viu a importância do trabalho e como a acumulação de riquezas retira as possibilidades de inventar em muitas situações. Não silenciou e escreveu obras que trouxeram metamorfoses políticas. Inverteu expectativas, duvidando dos cantos eufóricos dos defensores da industrialização. Suas ideias causaram impactos. Incomodaram como as reflexões de Darwin, atingindo religiões e grupos dominadores. Eles abriram espaços para redefinição de muitas relações sociais e elaborações científicas.

Na história, Michelet não assumiu metodologias objetivas . Festejou o romantismo, a força popular e quebrou a monotonia das escritas mornas de pesquisadores empolgados com a neutralidade científica. É importante citá-lo e mencionar a importância da interpretação e suas sinuosidades, tão presentes em Nietzsche. O pragmatismo, do nosso tempo, tem ressaltado a técnica, querendo apagar a fantasia do sublime. Todo conhecimento está atrelado a interesses, nem sempre favoráveis à coletividade. Os diálogos com a memória ajudam a diluir inércias ou mesmo estabelecer que a cultura tenha uma animação. Ela não surge, de repente, ignorando significados. Quando jogamos fora as lembranças, simplificamos a poética das transgressões.

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20 Comments »

 
  • ladjane disse:

    No século XIX Nietzshe e Freud atacaram com veemência os conceitos morais.O primeiro atacou o cristianismo, o ateísmo e uma vida amoral. Já o segundo também combateu bons princípios e era ateu. Ambos consideravam o cristianismo, como se fosse uma muleta para os fracos. Contudo a falácia antiteísta não se sustentou, pois as pesquisas afirmam que a maioria das pessoas creem em Deus. E mesmo se alguém diz não crer Nele, pelo menos reconhece um mínimo dos valores morais,que são imprecindíveis para se viver uma vida equilibrada.

  • Pablo Fontes disse:

    Viva à liberdade de expressão e pensamento! Me sinto feliz ao perceber que no passado poderia até ser condenado por ateísmo somente pelo fato de questionar o mundo no qual vivemos. Poxa, será pecado olhar em volta e simplismente tentar buscar respostas para as coisas cotidianas e, até mesmo, fazer perguntas do tipo: como funciona o mundo no qual se insere o ser humano.

  • Pablo

    A liberdade é um alimento da cultura. Mas há sempre limites e lutas. Nada é absoluto.
    abs
    antonio paulo

  • Gleidson Lins disse:

    O século XIX foi rico em romper com visões de mundo imutáveis, como nos exemplos citados. Foram rebeldes e revolucionários no pensar, destruindo dogmas sem medo nem pudor. O que está faltando hoje para que surjam pessoas e ideias novas, que indiquem um ponto de inflexão inovador?

    Abs,
    Gleidson Lins

  • ladjane disse:

    destruindo dogmas sem medo nem pudor? Será que destruiu mesmo?

  • Gleidson

    Muitas reflexões que quebraram verdades estabelecidas e ainda ressoam no mundo. Foi um abalo geral, mas houve também reações conservadores.
    abs
    antonio paulo

  • Vítor Jó disse:

    Vou transcrever parte do que falei do Nietzsche em meu blog:

    DELÍRIOS DESMASCARADOS
    “(…)O fato do Nietzsche ser um picareta se explica ao se fazer uma analogia de sua vida com sua obra. Ele escreveu que se deve viver como um super-homem, mas viveu como uma criança indefesa; ele escreveu que se deve desbravar e destruir as imposições sociais, mas ele viveu sob as manutenções de todas as ordens sociais; ele discorreu sobre guerreiros, sobre heróis da mitologia nórdica, e portou-se como um covarde que teme galinhas. Não desmereço o intelecto do Nietzsche: ele era fabuloso, ele construiu situações e pensamentos fantásticos, mas os fez como conseqüência de suas insanidades. Não acredito que Nietzsche tentava mirar na sensatez ao proclamar as suas idéias: ele as acertou por acaso. Nietzsche é absurdamente inteligente, tão inteligente quanto um louco. Pois não, um louco. Um louco pode atingir o limite de sua capacidade mental pois não possui fronteiras de bom senso para guiar-se mentalmente, para estancar um pensar; um louco pode criar um tratado econômico que erradique a pobreza do mundo, mas não se preocupa se isso pode matar as suas filhas. Pois bem, Nietzsche era um louco… (…)”

    E sobre Marx… Ah! Marx… O bon-vivant Marx, incumbido pelos Iluminados da Baviera a colocar-se como autor do Manifesto – quando essas ideias e muitas das do Manifesto já existiam há mais de cinquenta anos – junto com Engels, o nosso burguesinho…
    Bem, não posso dizer que a tentativa de semear a discórdia não tenha sido eficaz, por parte dos Iluminados da Baviera. O que me chateia não é o fato de desconhecerem os bastidores, mas sim de conhecerem o espetáculo, verificar que ele deu errado, que Marx errou na maioria de suas previsões ( e mais importantes), baseando-se em estudos econômicos ultrapassados já em sua época, e ainda o elogiarem! Marx , no fim das contas, só falou “mal do mundo”. Criticar é fácil, mostrar uma solução eficiente, prática e como >fazê-la< é que é o problema!

    Não tenho mais idade pressas coisas…

  • Vítor

    É isso. Cada um na sua trilha, garantindo a autonomia. A sociedade existe nessa multiplicidade. As divergências devem ser colocadas.
    abs
    antonio paulo

  • Julio Cesar Silva disse:

    É de teísmos e ideias gobineanas que o mundo caminha para a bancarrota…

  • Julio Cesar Silva disse:

    E “acertar ideias por acaso” é no mínimo constrangedor para quem lê…

  • Juany Nunes disse:

    Foucalt em um dos seus trabalhos se referiu a verdade como algo que contrapõe a mentira, existe a verdade para ser seguida e o que não faz parte dela deve ser ignorada.Todo discurso é submergido por uma intenção,um propósito.Quando a sociedade é regida por instituições que de forma alguma desejam ser abaladas, porque possuem segundo elas, a verdade estabelecida, a partir do momento em que surgem pessoas questionadoras que ousam contrariá-las e comprovar,ou não suas inquietações são negadas até a morte e passam muito tempo para serem reconhecidas.A história é a relação entre permanências e transgressões, em meio ao contexto histórico vigente do século XX, a concepção de progresso e os resultados dos conflitos, houve alguém que parasse pra dizer que algo estava errado,vocês estão enganados!
    Marx,Freud,Nietzshe e tantos outros foram críticos à verdade posta, ao poder inerente envolvido e tantos anos após seus discursos ou como tantos ousam afirmar,seus distúrbios.Foram estes de modos pessoais balançaram os paradigmas modernos.

  • Juany Nunes disse:

    Foucalt em um dos seus trabalhos se referiu a verdade como algo que contrapõe a mentira, existe a verdade para ser seguida e o que não faz parte dela deve ser ignorada.Todo discurso é submergido por uma intenção,um propósito.Quando a sociedade é regida por instituições que de forma alguma desejam ser abaladas, porque possuem segundo elas, a verdade estabelecida, a partir do momento em que surgem pessoas questionadoras que ousam contrariá-las e comprovar,ou não suas inquietações são negadas até a morte e passam muito tempo para serem reconhecidas.A história é a relação entre permanências e transgressões, em meio ao contexto histórico vigente do século XX, a concepção de progresso e os resultados dos conflitos, houve alguém que parasse pra dizer que algo estava errado,vocês estão enganados!
    Marx,Freud,Nietzshe e tantos outros foram críticos à verdade posta, ao poder inerente envolvido e tantos anos após seus discursos ou como tantos ousam afirmar,seus distúrbios.Foram estes de modos pessoais balançaram os paradigmas modernos.

  • Fábio Alves disse:

    A liberdade de pensar e de expor esses mais diversos pensamentos é fundamental para a existência de uma sociedade em que os indivíduos se respeitem. Como bem foi falado num dos comentários “a sociedade existe nessas multiplicidade. As divergências devem ser colocadas.”.
    Foi interessante a relação feita entre Marx e Darwin, no que diz respeito a contestar e incomodar elaborações de grupos dominadores da sociedade.
    Nossa sociedade tende a não ouvir o outro. “O que eu penso e falo está certo. O que eu escuto, se for diferente do que falo, está errado.”

  • Fábio

    Conviver com as diferenças culturais é fundamental para democracia. Querer, no entanto, manter as desigualdade sociais é um desastre. Cria tensão, desrespeita.
    abs
    antonio paulo

  • Christiane Nogueira disse:

    Essa conexão com o passado é o que orienta e impulsiona a vida no presente. É como experiência que o passado serve a vida. A não-ruptura com o passado é tarefa da história crítica, segundo Nietzsche. É um instinto construtivo que leva a história crítica a destruir e, ao mesmo tempo, retornar ao passado para dele retirar lições.
    A felicidade é circunstancial e tem ligação direta com o prazer e seu revés, o desprazer, que é o seu aspecto negativo. A instabilidade do mundo faz do equilíbrio uma ilusão. O individualismo leva à competição e ao narcisismo, dificultando qualquer exercício de empatia. A agressividade humana, que tamanho horror causou a Freud, é resultado, segundo afirmam hoje alguns psicólogos, da ausência do superego.
    Com Marx, aprendemos que os homens fazem a história e não sabem que a fazem, pois a ação concreta se explica por um “real abstrato”: as estruturas econômico-sociais. Os grupos atuantes desconhecem essa estrutura maior que os circunscreve, pois ela só é apreendida pelo pensamento, pela mediação conceitual. A história-ciência defendida por Marx abriu a cortina para a luta de classes no quadro do desenvolvimento das forças produtivas. Suas idéias, de fato, incomodaram e impactaram a sociedade da época, principalmente aquela parcela a que o materialismo histórico veio fazer o contraponto às expressões do espírito.
    No romanticismo há uma defesa da religião, do espírito nacionalista (burguês), da propriedade privada, da não-revolução materialista, do progresso. Tal movimento, assim como o positivismo e o historicismo, ia de encontro aos ideais iluministas. Jules Michelet, nesse contexto, apontava para o materialismo burguês como o cerne das forças sociais e o caminho para o progresso.
    O pragmatismo não desce aos porões do passado e não enxerga a memória como uma forma de adaptação que marcou a superioridade dos homens sobre os animais. Nesse ponto, não há como não remeter o pensamento a Nietzsche. Este afirmava que o sentido histórico como forma de memória pode orientar os impasses humanos em sua existência presente. Logo, se a vida é um instinto criador que está em permanente crescimento, não há como se negligenciar o auxílio da memória a ela. A vida presente tem sua origem no passado e dele se serve como fortalecimento e experiência; esta, para impedir que o passado se cristalize e cerceie seu crescimento, precisa do futuro e, curiosamente, vai buscá-lo no passado. A cultura, em meio a tudo isso, é o ato de aperfeiçoar a natureza, de modelar o texto originário, de criar.

  • Ivana disse:

    Insanidade, loucura, sensatez… A maioria das pessoas não penetra fundo no que as palavras tentam traduzir… Usar a razão é limitar o mundo complexo para que ele possa ser significado. Essa significação é difundida como uma regra geral, e a vida em grupo torna-se possível. Mas o mundo não segue os padrões da racionalidade. Criamos Um mundo, ao qual tentamos atribuir caráter de racionalidade desde os tempos imemoriais. A complexidade da vida não cabe no mundo racional. Nietzsche parece ter percebido isso… não me baseio na suposta “loucura” para fazer tal afirmação. Pois as obras dele deixam pistas. Quando Nietzsche coloca Zaratrusta na montanha e diz que lá na solidão todo devir quer falar com ele, através dele, há uma denuncia… na gregariedade há algo que nos limita, nos prende, que cala a vida. Somos afastados do mundo, pois estamos submetidos a UM MUNDO.O que possibilita a vida em grupo, esse dialogo que estamos tendo agora é nossa racionalidade. Nos relacionamos através de moldes impostos, e muitos nem refletem sobre isso.
    Quantos as supostas amarguras dele… talvez elas tenham sido proporcionais as suas alegrias. Quem conseguir acabar com a suscetibilidade do homem para os momentos de dor levara junto os momentos felizes… Plenitude, eternidade, atemporalidade nas faz parte desse mundo… faz parte de outro criado por nós, essa criação faz com alguns vivam numa busca “eterna” e condenem a vida.
    Saber esse mundo aqui agora é o que temos, deveria no mínimo despertar um pouco de respeito por cada pessoa, por cada momento. Nietzsche também percebeu isso, de uma maneira exemplar. Somente para alguns, que experimentam o fato de toda busca de sentido voltar ao ponto de partida, a vida com todas as nuances torna-se suficiente.

  • Yves disse:

    “Deus está morto.” A ciência é que o matou. Ela trouxe com ela novos valores: quando um pessoa tinha dor de cabeça, pedia a Deus que se curasse, hoje as pessoas podem até pedir a Ele que se cure, mas antes disso tomam um analgésico. Nietzsche é fundamentalmente importante para compeender nosso mundo.

  • Yves
    Nietzsche toca em questões básica. Mostra as máscaras e os disfarces. Ajuda a entender o vaivém do mundo.
    abs
    antonio paulo

  • Ivana

    Construiu um bom tempo. É isso, reflexões sobre os sentidos da vida e do tempo.

    abs
    antonio paulo

  • Christiane

    A história tem muitos ritmos. Os tempos se entrelaçam, mas discordam em muita coisa. Há espaço para inventar e fazer outras cartografia.
    abs
    antonio paulo

 

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