Freud explica ou não explica a complexidade da vida?

Freud explica. Uma afirmativa que ganhou o mundo. Nas mais triviais conversas, quando algo fica obscuro, alguém diz: Freud explica. Cai-se na ironia ou tudo se enrola ? É interessante, como um pensador de tanto fôlego e denúncias, firmou sua popularidade. Muitos nem se ligam no que estão especulando. Talvez, um brincadeira ou uma tentativa de multiplicar a dúvida. O que há por detrás disso, é difícil saber. Freud abalou a sociedade, com as suas teorias, e deixou os conservadores indignados com os seus princípios científicos.

O século XIX  trouxe muitas aflições e aprofundou conquistas da modernidade. No entanto, a tranquilidade não se fez permanente. Darwin, Marx, Freud tocaram em pontos cruciais da cultura ocidental. As religiões dominantes se fecharam e se sentiram provocadas. Darwin enfrentou o mistério da vida e sua evolução. Marx desfez a magia capitalista e defendeu a classe operária. Teve a ousadia de definir os caminhos da revolução. Freud não ficou distante. Entrou no campo da sexualidade, arruinou preconceitos e incomodou os chavões da hispocrisia do seu tempo.

Era um anúncio de que o progresso tinha contradições e máscaras. Ele satisfazia prazeres dos dominantes, mas reprimia e mantinha censuras. Aquela democracia sonhada não acontecia. A sociedade se envolvia com o lucro e o individualismo, beneficiando a minoria e produzindo uma miséria imensa. Os pensadores que transformam, não fogem da relatividade, nem se encantam com verdades fáceis. Escandalizam os bem-comportados, porque desconfiam das ordens fixas e traiçoeiras.

Procuram  explicar as contradições e nem sempre conseguem firmar um olhar otimista. Freud não tinha amores pelas utopias. Considerava os perigos das infantilizações e o desconforto que caminhava com as relações sociais. Não fechava os olhos para o sofrimento, buscava alternativas para administrá-lo. Não possuía o otimismo de Marx. O comunismo não lhe seduzia. Para ele, a generosidade tinha pernas curtas e a ambição uma voracidade quase incontrolável.

A vida se mistura com momentos de felicidades instáveis. Não dá para acreditar em amores eternos, em jogos sem suspenses, num mundo cheio de subterrâneos. A cartografia do paraíso anima, mas não convence. Os seres homens são animais sociais por uma questão de necessidade. Miram-se nos outros. Distinguem-se. Identificam-se. Amarguram-se. Deitam-se nos divãs psicanalíticos e desfiam suas histórias. Assim, segue Freud. A indústria, contudo, não perdeu tempo e inventou os remédios que tomam conta da contemporaneidade. Meu time foi derrotado, minha vida se desmanchou, meus afetos sumiram e a melancololia se tornou uma tirana. Tenho pressa. O mergulho, na dor, me sufoca e me tira energias.

Muita coisa para resolver com conversas. A palavra não salva, dizem. A ciência atenta  ajuda a fabricar os famosos psicotrópicos. Eles prometem apagar desmantelos, romper com  inércias. Milhões são gastos em pesquisas e debates.  Quem ganha quando Freud não explica? O labirinto é uma arquitetura definitiva? As perguntas pedem socorros. A sociedade constrói suas diversões e monta seus espetáculos. Como escapar, porém, das idas e vindas dos sentimentos ? Como não se contentar com as soluções passageiras? Qual o meu lugar no alfabeto de cores de Picasso? As incertezas não se extinguem.

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6 Comments »

 
  • Rosário disse:

    Professor Antonio Paulo,

    Gostei do texto, pois ele combina com meus sentimentos de começo de semana. Costumo dizer que na segunda-feira torno-me mais reflexiva. Parece-me que na segunda-feira as incertezas realçam seus contornos e pintam-se de novas cores. Toda segunda-feira promete o começo de não sei o quê? Mas na terça caímos na rotina e tudo se enrola ou desenrola.

    Mas a segunda-feira também é um dia bom para:

    “abrir um livro, ler uma página, penetrar os sonhos alheios” (pamuk)

    Abraços

    Rosário

  • Rosário

    A segunda é sempre um desafio. Parece um começo e depois vem a quebra. É isso.
    abraço
    antonio paulo

  • Quésia disse:

    olá professor
    Tem uma frase sua que me ajuda muito “O equilíbrio é sempre provisório e as certezas absolutas não fazem parte do humano.”
    Vivemos em busca desse equilíbrio, mas não aprendemos que ele nao é constante, como nada na vida. A ideia de que alguém ou algo pode explicar nossos sentimentos, aparentemente, inexplicáveis é um conforto que poucos conseguem abrir mão.

    obrigada por mais uma reflexão.

    abraço

  • Flávia Campos disse:

    Antonio,
    “Freud explica”, realmente, ora funciona como pergunta, ora como resposta, ora serve para “multiplicar a dúvida”, para “sair pela tangente”, para encerrar uma conversa…
    O interessante é que ele não se permitiu sair de cena. O procuramos para consultas, sentamos em seu divã, guardamos suas conversas/descobertas, ousamos interpretá-lo, experimentamos seus ensinamentos para “apagar desmantelos e romper com inércias”.
    Ele não consegiu explicar a complexidade da vida, mas nos aproximou dela ao demonstrar que “as grandes coisas podem ser reveladas através de pequenos indícios”.
    Com ele, aprendemos:
    “Existo onde não penso.”
    “O caráter de um homem é formado pelas pessoas que escolheu para conviver.”
    “Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste.
    “Não somos apenas o que pensamos ser.
    Somos mais; somos também, o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos;somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos, ‘sem querer’”.
    “Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, se convence que os mortais não podem ocultar nenhum segredo.
    Aquele que não fala com os lábios, fala com as pontas dos dedos: nós nos traímos por todos os poros”.
    “Não me cabe conceber nenhuma necessidade tão importante durante a infância de uma pessoa que a necessidade de sentir-se protegido por um pai”.
    “Em última análise, precisamos amar para não adoecer”.
    Será que “Freud explica”, porque nos possibilitou perguntá-lo; perguntar a nós mesmos; perder-nos para nos reencontrarmos… Para existirmos, onde não pensamos?
    Essa é apenas mais uma questão, entre tantas, que Rezende, junto com os futuros historiadores, tentará decifrar. Ou não. Talvez deixe para Freud explicar.
    Qual dos Freud? O fundador da Psicanálise, os que estão por vir, ou os que já habitam em cada um de nós?
    Belo texto Antônio!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    São muitas incertezas que cortam a vida.Mas sempre pensamos sobre elas. Freud ajuda a caminhar em muitas coisas.
    bjs
    antonio paulo

  • Quésia

    Grato pelas suas observações. A vida tem essa busca que não se conclui. Desafia muito. As questões não cessam.
    abraço
    antonio paulo

 

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