Fronteiras abertas, emoções vizinhas e ambíguas

A expressão aldeia global sintetiza tramas da contemporaneidade. Não é recente, vem do século passado.Sempre a trago de volta, para analisar as aventuras que nos cercam. Não posso negar que acontecem fatos no Japão, na Espanha, em São Paulo, em Paris, em Teresina, todos resultados das ações humanas. O mundo é pequeno, os desejos se reinventam. O importante é que os fatos nos tocam. Não sei, particularmente, ficar indiferente. Sigo os antigos: Nada do que é humano me é estranho. Acrescento que as coisas se perdem, porque o invidualismo cega e a massificação acirra a destruição das criatividades. Somos animais sociais, isso não discuto. Não somos os únicos, porém temos peculiaridades. Inventamos culturas, renovamos ostumes, fixamos tradições, disfarçamos tristezas.

Guimarães Rosa diz que O sertão está em toda parte. Portanto, as redes cobrem cada pedaço de chão e nem por isso vemos uma única cor. Não dá para entender o mundo , apenas, concebendo dualismos. A complexidade exige que andemos por territórios extensos e inacabados. Entre o bem e o mal há relevos de formas acidentadas ou planícies aconchegantes.O incomum tem seus abismos. Na aldeia global, cabe tudo, o visível e o invisível. Os olhares atentos não desperdiçam detalhes. Passamos por revoluções tecnológicas que ajudam a salvar vidas e a planejar genocídios. Sobram ambiguidades e desesperos. Tudo isso repercute e inquieta até os apáticos. Cada um joga dados da sua sorte. Há os que temem as epidemias, oram pelo fim das bactérias agressivas, outros condenam os terrorismos, maldizem Bin Laden, oram pelo fim das armas atômicas.

No mundo das comunicações velozes, as emoções se tornam vizinhas, não importam que estejam nos labirintos das guerras do Oriente Médio. A virtualidade encarrega-se de construir, de remendar trajetos. É  outro tempo. Assistimos às violências urbanas, acomodados na sala de jantar, comendo miojo e tomando vitamina C. Por vezes, nem nos assustamos, esvaziamos o real e sacralizamos as ficções. Existem os espaços das diversões: esportes, desenhos animados, documentários sobre os mistérios da natureza. As imagens multiplicam possibilidades, pois as fronteiras são tênues e a cumplicidade é incansável. Seguimos, como Ulisses na sua embarcação, atravessando mares, em busca de mantos, aparentemente, calorosos.

No domingo, o desfile das diferenças e das proximidades se enriquece. Há momentos maiores de contemplação. Não se espante com a comparação e, depois, pense onde fica o absurdo ou se tudo não é uma grande armação. O River Plate, famoso time da Argentina, caiu para divisões inferiores do futebol, pela primeira vez, na sua história. Choro geral para torcida solidária e amargurada pelo desconforto da queda. As TVs insistiram com as imagens de jogadores desamparados. Tudo tão perto. Por sua vez, a passeata gay acontecia, em São Paulo, com multidão e festa. Preconceitos derrubados,  costumes redefinidos, irritações religiosas, quinze anos de celebrações. A globalização não perde sua frequência. Certezas e homogeneidades se diluem. Pensar a aldeia global no campo da afetividades é testemunhar saídas e conexões antes inconcebíveis. O encontro e os desencontros estão em toda parte, mas não deixe que ruas fiquem desertas.

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4 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    A aldeia global é uma possibilidade trazida pelo avanço tecnológico dos meios de comunicação. Sem esse avanço, os acontecimentos importantes continuariam sendo os acontecimentos locais, que seriam apenas discutidos no dia seguinte, ao se ler os jornais. Hoje o que se passa (e onde quer que se passe) pode muitas vezes ser visto em tempo real, assim queiram os meios de comunicação. E essa nova ordem acaba por inverter valores. Por exemplo, nós, de Recife, esquecemo-nos que o trânsito está cada vez mais caótico em nossa cidade, que as nossas escolas estão cada vez mais sucateadas, que os hospitais públicos são deploráveis, que a violência espreita em cada esquina. Sabemos mais como está a guerra na Líbia, como foi a passeata dos homossexuais e que o River Plate foi rebaixado à segunda divisão na Argentina di que de nossos acontecimentos locais. A aldeia global amplifica o que, para a maioria, na verdade é supérfluo. É preciso ponderar e avaliar o que é válido. Mas, para a grande maioria da população o que vale é o efêmero…

    Abs,
    Gleidson Lins

  • Gleidson

    A proximidade poderia estreitar culturas na busca de alternativas mais dignas. No netanto, os preconceitos permanecem e a violência não cede. Ainda bem que sobre a vontade denunciar e o inconformismo.
    abs
    antonio paulo

  • gabriela disse:

    Seres pensantes, sejam eles músicos, professores, médicos, sociólogos ou apenas cidadãos comum, desejam ter seus direitos, garantidos pela constituição, efetivados.Tais pessoas possuem consciência dos problemas sociais, presentes na vida cotidiana da maioria.Mas, como resolver tais impasses ,se há um desconhecimento por parte da massa de sua real situação e um comodismo presente nas ações de tais indivíduos.Cogitasse a possibilidade de encontrar na educação uma forma de libertação.Entretanto,o próprio sistema exclui os indivíduos que não pensam igual a elite do poder.Pode-se citar o fato da globalização gerar uma sociedade que presa a obtenção de bens materiais desnecessários ,não aqueles essenciais para uma vida confortável,mas ,o exagero ,a associação de respeito e valor determinados pelo poder de compra possuído pelo cidadão. Para os mais críticos defender a tese que cada um pode fazer a sua parte , chega a ser uma atitude utópica ou apenas um pensamento de um cidadão inocente e “demenciado” para a realidade. É visível, também, a incapacidade do estado em garantir a cidadania se o mercado global, regido pelas megas- empresas, detêm o poder e comandam conforme a sua lucratividade.Por isso,depois de 500 anos que Brasil queremos?

  • Gabriela

    Bons comentários sobres as dissonâncias que vivemos. Há falta de interesse ,de muitos, por mudanças efetivas. Sobram especulações, faltam vontades comprometidas.
    abraços
    antonio paulo

 

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