Fronteiras nômades, destinos multiplicados

O ir e o vir fazem o movimento da vida. Falta clareza na escolha de algumas partidas. Nem por isso, anulamos os desejos. Eles flutuam, sentem a atração dos perfumes. O desconhecido não é sinônimo de medo. Pode levar ao encontro do inesperado, desajustar monotonias. É confuso, mas o risco se apresenta no inevitável. As fronteiras, entre as coisas e os sentimentos, são nômades e simbólicas. Há simulações de muros, barreiras, abismos. No entanto, a imaginação se solta para evitar desacertos e assanhar os prazeres. O voo da vida não possui destinos programados. Depende de tantas variáveis que não adianta fabricar mapas de geometrias exatas.

O coração ritma a dança e a ruptura. Difícil saber o que elas significam ou onde se alinha o melhor caminho. Os olhos podem estar bem abertos, porém não evitam sombras, nem obscuridades. As luzes aparecem no definir dos transtornos e arrastam dúvidas. Não há como afugentar as surpresas. Vivemos numa sociedade de múltiplos agenciamentos e nosso poder de adivinhação é precário.Por isso, nada  mais astucioso  do  que afinar a sensibilidade e mirar-se  na força do instável. Se as fronteiras são flexíveis, nos esperam ruas, becos, vulcões, ilhas sossegadas, ladeiras escorregadias. A mesmice forma, também, seus cenários. Então, o tédio se veste de soberania e toma um chá com Baudelaire.Fala-se de sorte e energias que distraem sofrimentos. A fantasia não é  uma mentira, mas desenho que borda o manto de Ulisses.

Há épocas de muitos tapetes mágicos e de risos sem constrangimentos. Repartir os sonhos com os surrealistas, os desenhos com Da Vinci, o assobio com Vivaldi, estica a ousadia e engana os sustos.Desfazendo as medidas, quebramos as restrições enfadonhas do acadêmico. Nas instituições imperam ordens, mas a eternidade é, apenas, desafio para jogar fora o movimento. A lógica do mito tem eco, não é cárcere que se encerra no passado. Poderíamos inverter a cronologia da história. Ela não indica felicidade e sinaliza que o tempo devora a vida. Conte as rugas do rosto e as marcas dos dedos na porta de entrada da sua moradia. Revele a qualidade do vivido e a densidade dos seus amores. Então, respire.Pergunte, não se canse de perguntar.

O que diferencia o sonho do pesadelo? Estão distantes um do outro ou visualizam amarguras das frustrações da incompletude? Pense que  sonho é a abertura para possibilidade e  pesadelo lembra tropeços subterrâneos. A leveza é companheira do sonho. As dúvidas atravessam os  descontroles das incertezas. São sínteses de experiências e agitam a preguiça de simplicar a saída do labirinto. Não cabem hierarquias, porque as circunstâncias abraçam as gramáticas da vida. Podem ser efêmeras, sem a  memória de lugares e de pessoas. Há instantes que pedem recolhimentos, mesmo que os ruídos da multidão teimem em invadir as escutas do corpo. As cores dialogam com emoções, expressam vontades de estar-no-mundo, mas são nômades. Van Gogh não é Picasso. Coubert não é Duchamp. Matisse não é Andy Warhol. Você  não é aquele que leu a primeira palavra do texto. Não esqueça o mistério que encobre as traduções.

PS: Houve repetição do texto da terça na quarta. Viajei e não fiz com cuidado o agendamento. Desculpem o descuido. Além disso, na terça estava no tapete mágico. Nasceu Luíza, minha primeira neta, e perdi um pouco a disciplina cartesiana.

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4 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Antes eu via o conceito de fronteira como algo material, palpável. O texto me fez expandir esse conceito, permitindo à minha imaginação transceder espaços e sentimentos.

    abs
    Gleidson

  • Gleidson

    A história tem suas sinuosidades. Nem sempre vemos o que nos conduz.
    abs
    antonio paulo

  • Monique disse:

    Ah, se toda disciplina cartesiana fosse cheia de emoção quanto a sua,Antonio, o mundo seria menos intransigente..parabéns pelo seu momento.
    Realmente as fronteiras são pláticas,pois o tempo sempre está lançando novos desafios…
    Van Gogh não é Picasso,nem Frida é Carmem Miranda e graças aos variados movimentos novas revol uções nos acrescentam com suas singularidades.
    Abs!!

  • Monique
    As diferenças ajudam a mudar o mundo, quando não criam desigualdades e miséria. Por isso, é bom interagir e mover os afetos.Grato pela presença e o momento é especial. Uma menina sempre traz uma abertura marcante. O feminino é profundo na sua sabedoria. Sempre achei isso e considero o machismo uma fraqueza e uma arrogância de quem não enxerga a dimensão sensível da convivência.
    abs
    antonio paulo

 

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