Futebol, Carolina e Beatriz: as sortes e as paixões

Chico Buarque fala de Carolina que não viu o tempo passar na janela. Destino cruel, tristeza sem luz, dor de todo mundo. Mas nem é julgamento, nem juízo final. Tantos se distraem de outras maneiras. Dividem seus instantes com a solidão, contando os dias apagados pelos desencontros. Olham os voos dos beija-flores imaginando trapézios invisíveis. Chico e Edu, também, cantam  Beatriz, arcanjo do grande circo místico, que parece anunciar que o amor e a beleza venceram, mesmo que seja por um triz. 

Anular as sortes e as paixões é uma declaração de mal-estar. Os seus lugares não se erguem sem fascínios, mesmo calados e arredios. Cada atividade humana gasta instantes e estimula continuidades. Não dá para voltar atrás. O renascimento é uma imagem cativante, mas tem razão Cartola quando sentencia que a vida é um moinho. Vamos compondo os infinitos dizeres que cabem, no mundo, que não se encerra na sua dimensão física.

A poesia da existência não mora, apenas, na sutileza do artista. Ela está no que move a paixão, não importa se passageira ou ilusória. Sem paixão o ritmo do tempo se vestiria de melancolias e meditações sem fim. Será que não é instigante romper a cadência ? Só se dança bolero ou um tango traz inquietude para o sangue? Às vezes, o corpo se entrega a um sossego improdutivo. Mede, com uma régua mínina, cada passo e suspiro. Fantasia prisões e adormece.

O jogo empolga pelo inesperado, pela quebra, pela possibilidade da sorte se espalhar e empurrar desejos intimidados pelo medo dos azares. As coisas não são  simples, nem se resumem a gritar nomes, abraçar bandeiras, jurar fidelidade. No futebol, torcemos por um time até o último momento. Que encanto é esse que perdura e arranha a eternidade? São as cores, as memórias coletivas, a influência da família, a vontade de optar por símbolos para sintetizar projetos? Vale a emoção, muito mais do que a objetividade.

O cerco da instabilidade não é o retrato de tudo que acontece nas nossas aventuras. Recusamos. Deslocamos. Consolidamos. Conectamos. Nem sempre, algo atrai de forma definitiva. As portas de vidro já conseguem esconder  figuras e defender a alegoria dos movimentos. Quando juntamos o coletivo, a energia se amplia. Não há como explicar, a costura dos mistérios.

 O time está no meio do vulcão, morrendo no fogo violento, mas o afeto do grupo faz a lágrima se desviar. É uma fase. Amanhã será outro dia.As artimanhas dos jogos são poderosas. O futebol usa muitas saídas. Mesmo tomado pelo mercado astucioso e pouco ético da bola, ele não submerge. É especialista em inventar coreografias, vocabulários, superstições. Seduz multidões, porque a frieza dos cálculos dos seus investidores foge do absoluto.

Vencer, sem sustos, não é regra de nenhum jogo. Pode significar um momento fugaz, de uma velocidade mágica. Os dizeres da sorte e da paixão não monopolizam as ações humanas.Mas Carolina e Beatriz não existiriam sem as suspeitas de que o mundo configura os desertos, para não morrer de paixão. Nomes de mulheres escondem e revelam a sintonia da levitação.

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