Gabriel e a solidão que se torna perene

 

Li Gabriel García Márquez cedo. Dei conta de boa parte de seus livros com alegria e encantamento. Quando li Cem anos de solidão fiquei levitando. Nunca tinha navegando por mares tão belos. Há dois livros que me empolgam e não canso de celebrar suas palavras: As cidades invisíveis e Cem anos de solidão. A literatura me anima, atiça a sensibilidade, faz sonhar. Macondo é a síntese da história do mundo. A imaginação de Gabriel é extraordinária. Alguns gostam de detratá-lo. Misturavam a política com a inveja e tramavam. Poucos tiveram o fôlego de Gabriel. Admiro Calvino, Kundera, Mia Couto, Paul Auster e muitos outros. Não nego, porém, meus deslumbramentos fortes.

Gabriel se foi, mas está presente para sempre. Quem nunca leu ? Acho difícil alguém não se contagiar com suas histórias. Lembro-me dos seus livros com saudades de um tempo em que a discussões literárias eram frequente. Lá estavam Pablo Neruda, Miguel Scorza, Vargas Llosa, Júlio Cortázar. Cada leitura era uma abertura para imaginação. Aprender a escrever exige contato com quem brinca com as palavras. Não se trata de uma travessura, mas uma intimidade preciosa, uma dádiva dos arcanjos. Quem despreza Jorge Luís Borges, Octavio Paz, Agualuza, Hugo Mãe? Pragmatismo pode ser um vírus temeroso.

A vida se complica. As tensões multiplicam-se. Os governos disputam migalhas, ensaiam golpes cotidianos, usam propagandas tendenciosas. Não é, contudo, novidade insistir nas desavenças e explorações. Jogar-se nas aventuras de Macondo, nas suas narrativas, é se mirar em espelhos demasiadamente humanos. Proclamamos que somos animais sociais e continuamos analisando os outros como suspeitos. as guerras permanecem com seus ruídos, a inveja arma traições, as paixões se dissolvem antes que o amor aconteça, os ídolos existem para criar fantasias divinas.

Quem inventou o mundo não esqueceu do exílio. Será que estava depressivo ou ansioso ? Será que não havia lexotan naquela época?  Macondo é um mundo que nos deixa perplexo. Não pense que Gabriel, apenas, se divertia. Fertilizava um sensibilidade singular, avisava que a vida não é linear, que a agressividade não é incomum, que a solidão não é um lapso freudiano. Somos indefiníveis, os tempos nos acodem, porém nos perturbam. Gabriel escrevia fazendo um ponte entre sua interioridade e as coisas lá de fora. A magia está na possibilidade do diálogo e temos dificuldade de compreender. Ficção e realidade se tocam com mistérios e memórias.

O inesgotável nos acompanha. É preciso não desprezar o afeto, nem inverter os preconceitos. Gabriel conhecia segredos do mundo que a maioria despreza. Ele os revelou, com um ritmo envolvente. A arte abraça vida mesmo com os dissabores. Ninguém se salva dos contratempos. Gabriel não se congelou, socializava suas ideias, desenhava esperanças e pesadelos com bordados inesquecíveis. Não custa viajar pela imaginação, esticar a paciências e o humor. A minha solidão tem nome e nunca quis fazer dela um abismo. Há escolhas. Não naturalizos a história.

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