Guimarães: os perigos que se arrastam pela vida

 

 

A leitura de Guimarães Rosa é sempre um encontro mágico.As palavras fluem, mas arquitetam esconderijos. Nem sempre é fácil. Há metáforas que nos deixam no meio do caminho. No entanto, o poder de sedução é incrível. Rosa escreve prosa como um poeta maior. Os significados se renovam, não cansam. Ele descobre mundos com simplicidade. Não arruma vitrines. Narra entrelaçado com a vida, falando de sentimentos, não esquecendo os perigos. Assume as misturas, a complexidade, sem passear por teorias  exóticas. Os seus intérpretes é que ficam buscando decifrações. É uma constante o desejo de esclarecer de vários intelectuais,  com arrogância intimidadoras, porém o mundo tem tantos avessos que o fôlego foge.

Quem trabalha com as ideias e seus entendimentos enfrenta os escorregões iluministas. O poeta fala das coisas e das pessoas com uma energia transcendente. Não se trata  de eleger deuses e firmar eternidades. A vida passa rápida somos impacientes. Com a tecnologia, em cada canto das moradias, ficamos lendo bulas, aparentemente, saudáveis. São muitos os códigos que funcionam como estranhas chaves para sair do labirinto. Podemos afirmar que a alfabetização é extensa e interminável. As gerações se tocam e se visitam. Os saberes se distanciam, muitas vezes, porque a pressa deixou de  ser inimiga da perfeição.

Nem por isso, o ontem deixar de surgir no hoje e nos assusta. Lemos Guimarães com espantos. A beleza dos seus textos nos transforma. Saimos dos instantes. O tempo não tem uma definição acabada. Viver é perigoso, porque se questionam as referências fixas. É preciso arriscar. Se não existissem surpresas, a monotonia dilaceraria os sonhos. A transcendência se constrói com malabarismos. Dialoga com as contradições, observa que o paraíso é uma ilusão efêmera, mas necessária. As palavras quando bordam sentimentos nos tiram da aridez, mesmo que nos tragam lágrimas e memórias sombrias.

Encanto-me com as narrativas envolventes, porém despreocupadas em criar  fronteiras entre a verdade e a simulação. Acho tudo muito confuso, mesmo quando cumpro as travessias acadêmicas. Elas nos pedem, na maioria das vezes, certezas, poder de convencimento. Mergulhamos nesses pedidos. Eles vão e voltam traçando decepções. Buscamos raciocínios luminosos, sistematizamos com rigor, costurando vaidades. Há quem adormeça nas pretensões, vestem-se com o sossego e formalizem hierarquias.

As navegações dos sentimentos são outras.  Nadamos por mares interiores com profundidade. É um desafio nomeá-los. O poeta faz desse momento o lugar da transcendência. Não se restringe a aprisioná-los. Conversa com o mundo, expõe seus abismos, parece conhecer o centro do labirinto. Alguma coisa se perdeu como tanto afirma Octavio Paz. Tudo se move, para que a perda não interrompa a vida. Há uma estética. Quem se cobre com seu manto ultrapassa a frustração e desfaz a cronologia das linearidades. Guimarães tinha seu sertão, mas ele ajuda a compreender que o ser(tão) está em todo parte.

 

PS: SÓ VOLTAREI A POSTAR TEXTOS NO PRÓXIMO DOMINGO, DIA 24

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>