Há sempre a busca e a escolha sacudindo o tempo

Nada como uma boa cadeira de balanço, acompanhada por um olhar que contempla uma paisagem de cores claras e penetrantes. Concentra a paciência e instiga a reflexão. Depois do agitar de dias corridos, deixar de lado a inquietação é mais do que humano. A vida não tem roteiro determinado.Podemos traçar certos cenários. Os dramas acontecem, as lágrimas limpam  dores, as vitórias se abraçam com alegrias. Não há inércia total. O mundo se sacode, quando menos esperamos.

Sou torcedor do Santa Cruz. Se perguntarem as razões, não saberia esclarecer. Os sentimentos não têm medidas cartesianas. O envolvimento, com o futebol, passa por essas incertezas. Talvez, meu avô materno, tricolor silencioso, me mexeu com seu afeto e decidi fazer um pacto com a Cobra Coral. Sei que é algo repleto de surpresas. Há amarguras e desprezos, mas também sorrisos e esperanças. Foi uma escolha definitiva.

Na política, não é diferente. Há mais racionalidade, discursos montados com perspicácia e desejo de findar com as desigualdades. É uma opção mais trabalhada, onde o afeto possui o seu lugar. Nas campanhas eleitorais, tiramos dúvidas, reforçamos posições, ampliamos sonhos. O que mais me comove são as parcerias. Fugir da escolha individual e me cruzar com o coletivo. A ética é ponto básico.

No entanto, recordar as falhas dos projetos e a mesquinhez que, às vezes, perturba as pessoas, remove a ilusão de que, um dia, tudo consagrará paraísos exuberantes. A neura do juízo final e do destino não alimenta busca saudáveis. Expande preconceitos. A crença de cada um é a crença de cada um. Todo respeito é grandioso, quando se veste de solidariedade. Cinismo e arrogância desfazem a comunhão, no sentido mais centrado da palavra. Os ressentidos desmontam esperanças e propagam medos.

Olhar o outro sempre é um ato difícil. Encontrar semelhanças, esticar compromissos, repartir experiências, tudo concretriza a profundidade das buscas. O mundo do consumo subverte valores e arquiteta infantilizações. É um perigo, no trato das relações sociais. Mistifica e favorece ao dualismo. Faz os 50 anos voltarem aos cinco, com se a propaganda fosse a cartilha mais justa do ABC. A alegrias fabricadas, nos laboratórios das fantasias mercadológicas, não se comparam com as brincadeiras dos circos de lona e das crianças fertizando suas imaginações.

Não me canso de criticar a lógica da acumulação e a paixão mecânica pela quantidade. A idéia de progresso e a loucura desenvolvimentista distraem o conteúdo das escolhas. Destruir, em nome da sofisticação tecnológica, é caminho para se afundar no pantanal. Encantar-se com hora seguidas de trabalho, em nome dos cofres recheados, pode levar ao descaso com o coração.

Não é à toa que a indústria farmacêutica cresce e a sensibilidade treme, diante da insensatez do utilitarismo.O meu Santa está se movimentando, com o presidente cheio de promessas. Isso não significa escapar do marasmo de anos. Não custa apostar na volta de times motivados e no apego a títulos conquistados com arte. O Brasil escolheu ou ratificou a continuidade de certos caminhos. Falta muito, para o Santa e para o Brasil. As buscas e as escolhas também nos pertencem.

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2 Comments »

 
  • Rafael disse:

    Antonio Paulo:
    Novamente, como sempre, mais um belo texto. É impressionante como sites de compra coletiva, onde oferecem produtos com descontos, mas que na realidade são os preços justos, são loucamente visitados várias vezes ao dia, enquanto blog’s e sites como o do senhor não tem tanto respaldo.
    É genial quando o senhor fala que: “Encantar-se com hora seguidas de trabalho, em nome dos cofres recheados, pode levar ao descaso com o coração.”, pois é o que mais vemos nessa sociedade capitalista, ou seja, a sobreposição do ter pelo ser. Faculdades particulares estão, cada vez mais, diminuindo o tempo de seus cursos, para que o indivíduo entre o mais rápido possível no mercado de trabalho. Dessa forma, estamos criando o que Platão chama de alma concupiscente, ou seja, só trabalhadores alienados repetidores de tarefas.
    Grande abraço

  • Rafa,

    A sociedade do consumo é cheia de seduções. É preciso atenção para não cair no vazio. Você fez boas colocações. Mostrou que a pressa é mesmo astuciosa e derruba valores.
    Grato
    abs
    antonio paulo

 

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