Identidades diluídas: a cultura da velocidade e do mercado

 

A chegada do fim de semana recebe, ainda, saudações. O  anúncio da sexta-feira já altera o ritmo das expectativas. Imagine se houvesse um feriado radicalmente universal com a preguiça se esticando por todas as esquinas. O elogio ao trabalho existe e não é pouco. Há gente que não suporta o prazer de ficar contando os minutos sem compromissos imediatos. A sociedade capitalista não se consagra fora do mundo das atividades febris e, muitas vezes, sem sentido. Mas o que importa é o movimento, a garantia de bons negócios, mesmo que as melancolias dominem os corações e esvaziem as crenças. Não dá para se livrar das ambiguidades que crescem e interferem nas escolhas de cada um.

Não se vive sem ilusões. Podem ser mínimas. A crueza das relações quebraria entusiasmos e terminaria determinando fatalidades. É difícil desenhar um caminho, pois sabemos que as certezas não possuem eternidades. A esperança de que haja dias de descanso agita alegrias. Muitos esquecem que há um calendário fixo que não respeita as euforias dos que optam pelo vadiar e duvidam que o fascínio constante pelo trabalho seja a saída. Na cultura de velocidade, a produção ganhou feudos imensos. Desmontar energias de lucros, para alimentar sonhos e afetos tornou-se um desengano.

Quem pensa num domingo sem esquemas de pressas, sem ruídos de despertadores, com tempo de conversar, inventar mentiras, frustra-se. Os dias são programados, celebrando cotidianos conduzidos pelos meios de comunicação. A televisão encarrega-se de soltar mesmices e estreitar a criatividade. Fica-se preso à magia da telinha, esperando, burocraticamente, que os famosos dias de lazer se encerrem. As novidades representam os anseios de compra. Aliás, o passeio aos shoppings conquistam adeptos, mesmo que o sol festeje o azul e o mar. Portanto, os desejos se diluem nos malabarismos do cartão de crédito.

A força de multiplicar objetos parece não ter intervalos. Nada de se subordinar ao vaivém natureza. O projeto de modernidade vestiu-se da técnica, abraçou a quantidade, firmou disciplinas. Há lugar para tudo, dizem os amigos da diversidade. Vende-se o que for preciso, o feitiço é quase absoluto. Por isso, a felicidade é fabricada, traz emoções todas conduzidas por estratégias objetivas e estatísticas planejadas com poder de sedução. A massificação contraria o fôlego da crítica. Não é à toa que se discute a fragmentação, que as drogas arquitetem  negócios, que a mediocridade não se acanhe. A história continua sendo a construção da possibilidade, porém a concentração de controles beneficia uma minoria.

Não é exagero olhar tantos descaminhos, se entrelaçar com tantas idealizações e assumir a perplexidade. Dar nome ao que acontece e compreender as identidades que desaparecem rapidamente desmantelam as tradições básicas. A dança tem ritmos que mudam o balanço do corpo, mas lhe garante sossego ou ousadias. Não significa que o apocalipse se anuncia ou existiram paraísos perdidos num horizonte sem passado definido. As histórias não perdem referências, apesar das misturas. Somos animais sociais. Não vivemos sem pertencimentos. Só que agora eles flutuam com  agilidade incomum. O exílio se institui nas nossas próprias moradias.

 

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