A rebeldia e a repetição não se largam do cotidiano

Nas festas especiais do consumo de tudo acontece. Os shoppings ficam marcados pela avidez da grana, mas também se sente ameaçado pelas multidões ausentes do fluxo maior dos bens materiais. Há silêncio sobre os descontroles. A imprensa divulga os êxitos, o maior poder de compras das chamadas classes C e D, as últimas novidades vindas dos descartáveis chineses. Tanta coisa se revira. Termina prevalecendo a euforia. As mensagens omitem a violências, as fantasias de fortuna esquecem a fome, o mundo agigantado das drogas e das depressões. A gangorra da vida não descansa nem sob as luzes das vitrines. Nosso estar-no-mundo continua sinuoso, apesar das promessas dos políticos que não apagam seus arranjos pouco éticos.
Os conflitos não se descolam de cenários que pareciam voltados para reencontros com o sossego. No Egito, os combates de ruas denunciam que a democracia está distante. A famosa primavera que iria florir no Oriente Médio possui fôlego curto. É difícil redefinir tradições, assombrar autoritarismos. Os fantasmas fascistas percorrem passados, querem permanecer como identidades firmadas. O diálogo entre judeus e palestinos não se expande. As populações sofrem, nascem condenadas a conviver com armas e ódios. Não sentem o tilintar dos sinos, adormecem inseguras com medo das bombas.
Há uma fábrica de ilusões que atua, distorce fatos e intimida críticas. Não pense, no entanto, que a ordem dominante se sente cercada de certezas. As desigualdades sociais geram vacilações e convocam as instituições repressoras para organizar suas ações. Há ameaças de invasão a shoppings que atordoam comerciantes e minimizam lucros. Isso acontecce, circula em alguns jornais, é tema de reportagens nas TVs, porém de maneira discreta e quase invisívisel. O inconformismo não fica nos heróis das novelas, nem nas revoluções do passado. Todos querem ter acesso aos bens materiais, tão anunciados como portadores da boa vida. Não é uma provocação manter um sistema que reproduz desacertos e joga a maioria na lata lixo?
Pois é. A ordem vencedora não convence, totalmente, embora se cerque de artifícios sofisticados. O salário-mínimo aumentou, respira-se outros ares, no entanto as hierarquias não diminuíram e milhões enchem cofres de uma minoria. A concentração de riquezas é agressiva. Ela se agudiza nos momentos de exarcebação do consumo. As praças públicas estão iluminadas, com moradores pedindo refeição e crianças buscando água para lavar suas roupas. As generosidade são passageiras, explicitam bondades localizadas, pintam gestos que pouco mudam os desconfortos gerais. As igrejas oram, muitas vezes de portas fechadas, não ligada nos que, fora, choram a dor do desprezo.
É importante não esquecer que as ambiguidades não residem, apenas, nas especulações dos filósofos, nem nos lamentos agudos dos profetas. O mundo é vasto na distribuição das rivalidades e das competições, não só na multiplicação dos saberes e na renovação do estoque das mercadorias. As continuidades não se largam do cotidiano. As formas variam, as utopias se redimensionam. Os simulacros de paraísos merecem ser expostos. Os ruídos ajudam a refazer a história e não emudecer as rebeldias.
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