Lugares da vida: a fama e a massificação

A morte dos famosos provocam polêmicas. Há quem sofra, sinta proximidades, faça o luto de forma radical. Pode ser, apenas, um comportamento de idolatria, segundo alguns. No entanto, não se deve subestimar o ritmo da emoção do outros. O mundo é vasto. Compreende-se que a complexidade das relações sociais traz eixos diferentes. A medida da dor é sempre misteriosa. Não dá para se impressionar com a quantidade de pessoas existentes. Isso não significa o fim da solidão, nem nunca significará. As ilusões acompanham o fazer da cultura. As máscaras não servem, somente, para as festas. O rosto muda, mesmo que traços queiram permanecer constantes.
A quantidade está em tudo. Confunde as possibilidades de escolhas. Há admiradores de artistas, que fazem sucesso. e que desconhecem o peso de flagelos que estão próximos. Conviver com muita gente não é sinal de acolhimento. Há abraços fingidos, encontros transitórios, simulações vadias. Por isso, muita gente se mira no que está distante. Cria suas fantasias, acorda suas infantilizações, viaja no tapete mágico dos sonhos. Formam-se afetos que tocam, profundamente, apesar da falta de diálogo e da manipulação dos meios de comunicação. A fama é um fonte espelhos na construção de transferências emocionais e na vontade de superar os limites. A sociedade globalizada anima a sua presença.
Quando as perdas se verificam, os deslocamentos atuam. O coração procura consolo e se vê num descontrole que se espalha. Há guerras, fomes, violências, falta de escolas, corrupções, maiorias abandonadas, porém o olhar não se fixa. O entrelaçamento,de tantas coisas, costura incertezas. Se elas se esticam, os muros precários se desmoronam mais ainda. Portanto, não há porque se assustar com as idolatrias. Elas compõem os lugares da vida, sobretudo numa sociedade onde as informações circulam com intensidade. É uma forma de se ausentar das cargas pesadas do cotidiano. Quem não desenha suas utopias pessoais?
A memória não deixa de se mexer. Os mitos gregos nos ensinam que a história se veste de muitas cores e que mesmo desbotadas ela atravessam séculos. Quem não se recorda da força de Hércules, das astúcias de Sísifo, dos amores de Ulisses na sua viagem cheia de turbulências? Não faltam devaneios, pois continuamos envolvidos com os mistérios das origens e as arquiteturas dos labirintos. Os famosos absorvem poderes e os transmitem. Quando eles se vão traduzem situações de desamparos que superam, até mesmo, questões pessoais íntimas. Não é um fenômeno incomum. Mora nos lugares da vida, nas suas atmosferas flutuantes.
É difícil, então, estabelecer os julgamentos. Os divãs dos psicanalinistas se assanham com as sutilezas do humano. Barbáries retornam, epidemias pós-modernas desafiam a medicina, os sentimentos se reviram estranhando os reino das máquinas. O desejo de transcendência atiça a superação da mesmice e exige uma sensibilidade que nos leve para além do vivido. Nem todos se envolvem com uma reflexão sobre as carências ou sobre as possibilidades. Preferem o sossego, a brincadeira mais frágil. As polêmicas não cessarão. A solidão e a solidariedade são lugares da vida. A massificação do consumo não consegue desmantelá-las de vez.
ShareYou can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.