Intolerâncias, história, descontrole

Seria uma melancolia incomensurável pensar o mundo adormecido numa uniformidade. Ninguém pode negar que há muitas divergências, choques, inimizades, desafetos. O difícil é vivê-los. A escolha da violência como solução é um engano cruel. Apesar dos inúmeros conflitos, a solidariedade ainda resiste e faz a história caminhar. Há uma pedagogia social que não busca experiências companheiras e anulam comunhões. As disputas acirram descontroles, colocam pedras no meio de qualquer diálogo.

Quando a violência assusta o mundo, as notícias se espalham, as ruas se enchem, o medo se propaga. Mas é preciso também ficar atento para as chamadas violências cotidianas. Escondidas, elas desenvolvem estratégias de dominação que inibem resistências e estimulam escravidões. Se tudo funciona agitando concorrências, admitindo concentração de riquezas, aceitando desigualdades, a tensão persiste. A perplexidade é geral, não atinge apenas territórios restritos, ela abraça o mundo, explode,desfigura. A atenção e o cuidado devem buscam compreensões sem mesquinhez. Não bastam, apenas, grandes acontecimentos.

O ar que se respira é pesado e traiçoeiro. A história é a construção da possibilidade, não presa num quarto estreito. Se a intolerância evita proximidades, as palavras são substituídas por armas. O descontrole se expande. Crenças, éticas, mercados, ironias, preconceitos, tudo se mistura. A aldeia global não consegue arquitetar moradias de sossego e a desconfiança veste corpos nervosos e desencontrados. Elogiamos a diversidade. Não é negativo que existam cores, sons, desenhos diferentes. O importante é como esticar as diferenças sem ferir a convivência, nem provocar divergências assassinas.

Não  há uma linha reta, nem princípios indiscutíveis que carreguem a aventura do existir.Talvez, nossa fuga do paraíso tenha sido mesmo um pecado, ou esse tão aclamado paraíso não passe  de uma metáfora alinhavada com desesperos. Os estranhamentos exigem sagacidade para que haja escutas e afetos permanentes. As ambiguidades não se cansam, as ciências inventam alternativas, as filosofias não apagam as dúvidas, porém o movimento, nem sempre, agrega ou costura garantias.

A história não tem paradas, traça trilhas, joga o futuro para o desconhecido.Os desejos acendem fantasias. Saber o tamanho das trilhas, suas curvas mais engenhosas, é tentar controlar o que surpreende e rasga o sonho sem cerimônia. A narrativa da minha vida se conecta com outras vidas. A história morre se a ruína do ódio prevalece. Se o outro é uma ameaça constante, a sociabilidade se desmancha radicalmente.

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