Italo Calvino: um dia de convivências e reflexões

Escrever sobre as experiências vividas traz um toque singular. Não deixa de haver fantasia e interpretações. Tudo passa por filtros e enganos. Não somos amigos da exatidão e a subjetividade possui suas invenções. Calvino tem uma escrita ímpar e uma vasta obra. Lamento que não seja lido como merece. Ele é um dos meus arcanjos. Gosto da sabedoria que transmite, sem arrogância e com palavras preciosas. É um autor que não dispenso e que me atrai sempre. Nada como buscar releitura e afirmá-lo como um clássico. Aprendizagem não tem ponto final.

Ele faz parte das minhas bibliografias acadêmicas. Procuro fugir das leituras que se repetem e Calvino sacode os que estão acomodados com teorias longas e complexas. É importante não desprezá-las, porém não custa investir na imaginação mais ousada. Há quem renegue a chamada ficção e se fixe em conceitos congelados. Existem disputas por lugares, apesar das muitas construções. Quem não cita pode cair no abismo. Então, a vitrine sempre é acionada com agitações constantes. A academia não está fora do capitalismo, idolatra metodologias e cultiva vaidades.

Calvino não se afirmou por uma obra de destaque que ofuscou às outras. Ninguém esquece As cidade invisíveis, com suas fábulas surpreendentes. No entanto, há mergulhos no cotidiano, nos difíceis amores, nas histórias tradicionais, na multiplicidade que cerca o humano. Viaja pela leveza, ressalta a visibilidade, não apaga as ambiguidades. Admira Jorge Luís Borges, sem deixar de enfatizar as astúcias de Paul Valéry, o fôlego de Dante. Portanto, não lhe falta erudição. Conhece jogos, articula imagens, quer consistência na literatura para manter um mundo com apatias curtas. Não sei é Palomar, mas carrega agonias e perguntas.

N’ O dia de um escrutinador se liga em convivências e angústias pessoais. Questiona a política, observa as diferenças, lamenta-se. Sente a complexidade do humanos. Mostra que não há medidas definitivas. O amor é que nos salva dos limites mais mesquinhos. Os entrelaçamentos da vida não se esgotam. Entre freiras, religiões, eleições, doenças existem acasos monumentais. Tentar resumir a vida é um desafio. Calvino desenha sentimentos, narra com intimidade problemas que também são seus. Pensa nas continuidades nunca esgotadas. Não fecha os olhos, adivinha.

As viagens, talvez, não tenham pontos de chegada. Quem sabe se não estamos sempre partido, num navio invisível, num porto acanhado, num afeto duvidoso ? Quem firma certezas? Calvino não é inimigo do relativismo, encontra-se com o leitor em cada reflexão para inquietá-lo. A vida se balança com assombrações, porém precisa de escritas, de companhias que adormecem para aquecer o corpo e sonhar. Simplesmente, estamos no fogo, na água, no ar, na terra. Voamos e avistamos pântanos e luzes. Calvino conversa. Não se esconde numa noite de inverno. Mantém o otimismo da narrativa sedutora.

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