James Bond: as sombras do mundo apressado

Costumo assistir aos filmes das aventuras do James Bond. Divirto-me. As fantasias  multiplicam-se. Hoje, com os recursos técnicos atuantes os desafios são imensos para sentir até onde querem ir seus autores. Nada de exagerar nas interpretações sofisticadas. A cultura não é feita sem inquietude. Um filme não pode estar perdido nas demandas do mercado. Gira em torno do sucesso. As peripécias do 007 não são recentes. Renovam-se, com certas permanências. Atraem épocas diferentes. Vende. Encanta. Corre o mundo globalizado e complexo. Portanto, lá estou atento, sem tensões, porém visitando memórias, compartilhando emoções.

A indústria do cinema é poderosa. Não deve ser analisada com números fixos e fabulosos. A grana é importante. Quem pode negar, contudo, que os Estados Unidos construíram poderes culturais, formando seus ídolos, divulgando hábitos, enaltecendo valores? O cinema dialoga com a dominação, possui momentos de crítica, coloca dúvidas nos conformismos, cria saídas dos labirintos. Fellini, Antonioni, Glauber, Chaplin merecem ser vistos e discutidos. Há muitos outros, com linguagens estéticas que se transformam e compõem  sinfonias incríveis. Há massificação e espaços de polêmicas. As reflexões não moram, apenas, nas academias consagradas. Os saberes circulam, dançam ritmos.

No último filme de Bond, usaram imagens de significados que acendem interpretações. No início, Adele canta uma bela canção(Skyfall). Na tela símbolos diversos, míticos: a morte, a vida, a violência, o fundamento, a busca, a ressurreição. Quem quiser organizar suas viagens que as faça. A rapidez não permite muita divagação. Mas não é mundo da velocidade que nos pede agilidade e, às vezes, alienação? Observe como as pedagogias se modificam. Um dia tive 20 anos, agora tenho 60, meu filho mais novo, 17 anos. Cada um se toca com o outro, mas há abismos e ousadias que afastam concepções e desejos. James Bond envelhece e a sociedade rebusca-se.

A trama do filme nos atrai para as misturas, os diálogos, as carências dos instantes. Bond veste-se com outros fascínios, mas não se despede da agilidade e da ironia. Poucas palavras, muita ação, sensualidades que navegam por outros modelos. Não estamos mais no século XX. A informática dita ordens. O masculino e o feminino fogem de padrões que eram festejados nas primeiras exibições de 007. A indústria cinematográfica estende-se, não firma identidade passivas. Consegue atravessar as continuidades, brinca com a forma, não se desfaz das possibilidades de mergulhar a emoção num mundo de urgências reinventadas.

Fiz deduções. Achei interessante a figura da mãe e o comportamento das personagens centrais diante dos ressentimentos. Trouxe recordações freudianas, entrelaçadas com o vaivém dos malabarismos. Não estamos mais entusiasmados com as nações. A ideia de pátria passa por sufoco. Não se pode negar que o filme não se esquece de penetrar nas angústias e dúvidas que nos cercam. Cada espectador costura seu olhar, nem sempre quer saber das profundidades. Para muitos  vale a atmosfera dos desenhos assustadores, do que avaliar verdades, colocar James Bond e o vilão no divã. O mundo e suas ficções convivem com sombras. A dominação não se furta de manipular invisibilidades. O cinema não se ausenta dessas acrobacias.

 

 

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

4 Comments »

 
  • Jonas Augusto disse:

    Apesar de toda questão histórica que envolve o personagem 007, as tramas conseguem fascinar. Uma história que se tornou atemporal.

  • Jonas

    Há coisas que se repetem e nos dão uma sensação que mudam as cores, mas os desejo sao os mesmos. Mas gosto de ver e me divirto.
    antonio

  • Clara disse:

    Achei esse um dos melhores filmes de James Bond.
    Mexe com a nossa consciência sobre o contexto atual e nos emociona a nos colocar de frente com o tema do envelhecimento,da cultura da valorização da juventude e da superação da experiência em nesse contexto.

  • Clara
    Também gostei. Traz boas imagens e polemiza.
    abs
    antonio

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>