Jomard: as escritas afetivas do mundo

Rebelar-se não é sacudir o passado no lixo. As referências existem e não há como anulá-las. O mundo atual se perde quando deifica novidades e celebra consumismo doentio. Mais do que nunca, é precioso estar atento e forte. A mentira não  se vai e as ambiguidades ganham espaços incomensuráveis. As lutas se confundem com ódios mesquinhos. Não há como se livrar de um bombardeio de imagens que nos tornam cegos. Fomos tomado por pragmatismos apressados, pelos modismos descontínuos, pela preguiça das drogas delirantes. O movimento é ocupado pelo discurso vadio, pela agonia dos que se fragmentam com tonturas velozes.

Gosto de ler Italo Calvino. A escrita dele é fascinante e incomum. Não se esgota. Há escritores que fogem de um tempo definido. Merecem saudações constantes. Quem não leu Calvino deve mergulhar com urgência nas suas fantasias e polêmicas. Traz ânimo e fura a mesmice. Mas nem tudo se encontra desgovernado. Há pontes na literatura que animam o desejo. Assisti, sábado, a um filme sobre Jormard Muniz. Olhei com deslumbramento  todas as coisas que ele propõe. Jomard desafia, inquieta, não perde a sabedoria do humor. Não aprecia calmarias, contudo não se acanha com os afetos. O mundo é vasto e estranho. As diferenças não são inimigas do diálogo

No seus acasos, ele traça linhas curvas e surpreendentes. Os territórios estão para além do ontem, porém não adianta quebrar o passado. A nostalgia possui um lugar, junto com os escândalos e os sonhos iluministas. Jomard dança o ritmo do seu tempo, sem alijar a simultaneidade. É profeta dentro dos limites da história do agora. Difícil definir sua obra. Talvez, inútil querer enquadrá-lo. Quem se conhece sabe que o interior toca no exterior. Não há fronteiras e a linearidade pode ser um suicídio. Adão e Eva nunca escutaram as vozes das serpentes. Tudo não passa de uma lenda desbotada, para acender culpas e igrejas e punir a afetividade entrelaçada. O que diria Calvino conhecendo Jomard?

Aqueles que reconhecem os labirintos, não negam a incompletude. Mexem com os céus e os infernos, As possibilidades flutuam como um tapete mágico. Não cabem comparações exatas entre Calvino e Jomard. Seria sacramentar o absurdo. É importante observar como o mundo se inventa, quando derrotamos as fabricações opressivas. A literatura multiplica a força da palavra.Seduz e combate Nem todos conseguem desenhá-la. O mundo submerge, porque os códigos imprimem máscaras sem cores. Substitui a tristeza, pela devassidão das mercadorias.

Quando Jomard escreve seus atentados poéticos mostra que os labirintos podem ser percorridos sem amarguras. As incompletudes fazem parte da vida. O onisciente é um desejo de deuses atordoados com suas criaturas. O mínimo não é a escravização do impossível. As palavras anêmicas despedaçam o corpo e nos empurram para a tolice. A existência de escritas favorecem a mudança de lugares e a ampliação de perguntas. Jomard é um construtor de tempos. Contemporâneo e ousado como um pássaro que desfiou a gaiola. É um trapezista de um circo com teto de estrelas. Feriu o preconceito e o tempo morto.

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