José Sarney e as travessuras da política

Sarney tornou-se uma figura presente nas mais diversas articulações da alta esfera política. Desde os tempos dos governos militares que possui destaque  nas manobras decisivas e não perde espaço nos apadrinhamentos dos parceiros. Não se limita ao cochichos de Brasília. Seu poder se amplia, quebra fronteiras partidárias e regionais. Muitos  se surpreenderam com sua amizade com Lula e seu peso na arquitetura da administração de Dilma. Não se faz de rogado. Exige benefícios e apoios nas horas de aperto e demonstra s mágoas quando é esquecido. Gosta das soberanias, de ditar ordens e pactos fundamentais.

As notícias sobre Sarney despertam manchetes imediatas, geram expectativas nas colunas dos principais comentadores políticos. Sempre se especulam rearrumações nas demandas dos favores, mudanças ministeriais, retomada de conciliações ou a fermentação de atritos. As tensões aparecem, assustam, pois os perigos rondam como fantasmas. Sarney recupera-se de um problema de saúde, conseguiu diluir o circuito da gravidade profunda. No entanto, os sinais que o tempo passa e os privilégios merecem discussões não  fugiram das conversas. As ideologias andam moribundas no cenário do pragmatismo das ações. Complexidade e misturas não faltam, ornamentadas por ambições e desejos de centralizar mandamentos conservadores.

Sarney não é um símbolo isolado das travessuras do poder. Lembre-se de Maluf, Jucá, José Dirceu, Serra… Cada um, com suas encenações e interesses, ocupa corações de seguidores. Movimentam-se com sede conspirativa. Sarney recebe, porém, uma atenção especial. Sua longevidade, seu jogo de cintura, seu império econômico chamam a atenção. As idas e vindas da política são traiçoeiras. Fragmentam sonhos e destroem projetos. Os escândalos revelam peripécias sofisticadas. O caso mais recente mutilou reputações impolutas. Milhões de reais aprisionados por rede de corrupções extensas mostram que a desconfiança desfila com força e não deve ser abandonada.

Tudo é lamentável e se repete. Rende vazios éticos. Os hospitais carecem de leitos e de médicos, as escolas públicas não cuidam da qualidade dos seus professores, os partidos políticos se assanham com qualquer eleição de forma agressiva. As lutas internas fazem duvidar de planejamentos ou de aspirações para findar com as desigualdades gerais. Há quem se encante com certas euforias desenvolvimentistas. Cobrem-se de estatísticas, enchem-se de empréstimos bancários. Celebram elogios vindos de fora quando os desacertos internos são visíveis, para além das quantidades de motos e automóveis que mobilizam o sistema de crédito.

Prefiro reivindicar, no mínimo, governos preocupados com os desastres ecológicos, com o ruir da segurança urbana, com as habitações próximas dos lixões. O pessimismo alimenta apatias, no entanto as ilusões fabricadas, por propagandas persistentes, mantêm hierarquias opressoras e massificações regidas por promessas superficiais. A questão não se resume às habilidades de Sarney e sua longa estada nas trilhas mais prazerosas do poder. Insisto que a razão cínica não está monopolizada. Ela possui adeptos nos esconderijos do crime organizado e nos planaltos mais luminosos. Se a rebeldia só tem força com o deslocamento da maioria, o outro lado da acumulação das manipulações, pouco transparentes, não dispensa suas infiltrações no controle das riquezas e no desprezo pela repartição da cultura. O céu permanece nublado e sombrio.

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