Joyce, Benjamin, Mia Couto, García Márquez

    

James Joyce fez a revolução na literatura moderna. Ninguém consegue esquecer suas travessuras inesperadas. Joyce não era um intelectual típico. Vida sofrida, com vários desencontros familiares, ele gostava de beber e o fazia com uma frequência que alarmava seus amigos. Escreveu Ulisses, com fôlego que destronou modelos e garantiu um lugar de permanência na memória dos amantes dos romances. Imaginação avassaladora, não se acanhou diante das possibilidades de inventar, de (res)siginificar as palavras e festejar o cotidiano. Seus livros tornaram-se objeto de admiração e de estudo. Não prometem uma leitura fácil. Desafiam, transgridem, buscam desfazer tradições. Por isso, não perderam o encanto, Transcendem as fronteiras do tempo.

Walter Benjamin conversa com os historiadores sempre com temas instigantes. As ideias não morreram. Ressurgem com força, alteram perspectivas metodológicas, incomodam os apaixonados pelos paradigmas do positivismo. Viveu uma época de violências crescentes.Viu o totalitarismo se expandir até mesmo na União Soviética. Benjamin não se intimidou. Criticou o historicismo, diluiu ortodoxia, desacreditou nas promessas do progresso. Teve choques com os amigos frankfurtianos. Não se entusiasmou com a modernidade, mas também não a jogou no lixo. Temia pela narrativa, pelo afeto, pelas perdas trazidas, pelo fim de certas tradições. Não suportou as pressões. Foi-se da vida. Sua obra ganha , nas últimas décadas, presença marcante nas academias. Ela não é, no entanto, retrato de conformismos, mas de inquietudes.

Mia Couto dialoga muito com a literatura brasileira. Aprecia Guimarães Rosa, com empolgação. Não se omite. Faz elogios, lembra o escritor de Grande Sertão em vários momentos. Mia é sedutor. Traz o leitor para um mundo que não cessa de surpreender. Suas paisagens são deslumbrantes e sua sabedoria singular. Longe dele qualquer movimento de banalização. É parceiro indiscutível da beleza.Viaja pelo tempo sem ameaças de linearidades. Segue as astúcias dos entrelaçamentos entre passado e presente. Não silencia diante da diversidade das culturas. Seu texto não renega a magia, tem o perfume da eternidade e da ousadia. Adormece e acorda mitos, balançando-se num trapézio desenhado por um imaginação apolínea. Mia é um artesão cuidadoso. Observe alguns títulos dos seus livros: O outro pé da sereia, Um rio chamdo tempo, uma casa chamada terra, O fio das missangas, Antes de nascer o mundo…

Gabriel García Márquez confessa, na sua autobiografia, que as conversas femininas foram fundamentais  para a criação do seu universo íntimo. Era curioso e as acompanhava nos detalhes, na cozinha da casa dos seus avôs. O texto de Gabriel possui uma multiplicidade de intenções que atrai de forma radical. Saímos do realismo comum. Caímos nos charmes de Scherezade, ultrapassamos as barreiras das noites e testemunhamos a continuidade dos sonhos. O importante é o aconchego, mesmo sabendo que existem agonias e frustrações. O escritor investe no encantamento, desfia lógicas, acrescenta, não se perturba com as diferenças entre verdade e mentira. Gabriel não partilhas das mediocridades que, muitas vezes, se firmam na discussões sobre ficção e história. Macondo se estende por todos os caminhos e o amor tem paciência, não importando os desfazeres. A vida é palavra solta.

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4 Comments »

 
  • Monique disse:

    Antonio,
    Passo desta vez para lhe desejar meu sincero voto feliz ano novo!Obrigada pela contribuição de seus excelentes textos durante esse ano.E espero continuar com essas agradáveis leituras também em 2012.
    Felicidades a você e seus familiares!
    abs

  • Monique

    Tudo de bom. Boas energias e muita sorte.Grato pela convivência.
    abs
    antonio paulo

  • Emanoel Cunha disse:

    Os escritores são personagens que encantam a vida das palavras nas suas íntimas vaidades. A dimensão das variedades dos estilos literários são múltiplos. São curvas que com suas sinuosidades nos faz adentrar em mundos imaginários ligados com a realidade.

    Adorei os escritores citados. Não tinha conhecimento de Mia Couto, o incrível é que me fascinou a descrição que o Senhor sintetizou das obras dele. Procurarei conhecê-lo!

    abs

  • Emanoel

    Com certeza, a literatura recria a vida e solta seu poder de invenção.
    bas
    antonio paulo

 

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