Julgar, compreender, manipular

 

Estamos na história. Não adianta perguntar para onde vamos. Há respostas, mas também inúmeras. O que não falta é mistério e desconforto. Nem por isso, descontinuamos. As transformações acontecem, desfiamos tradições, imaginamos utopias. O movimento da vida nos tira do sossego. As reflexões apressadas mostram que a complexidade não cessa de aprontar suas armadilhas. Administramos tempos, neuroses, afetos. Sistematizamos, desorganizamos, refazemos. Não há um fórmula que aquiete, porém sobram ilusões em cada esquina.

Não estamos mais tão envolvidos pelas amizades familiares. A mídia veste nossos julgamentos com imensa capacidade de manipulação. Não é astúcia intelectual denunciar que a sociedade de massas nos confunde com o seu objetivo de acelerar a dominação. Nossos valores se balançam. Não é à toa que as televisões ganhem espaço e novelas provoquem delírios. Há comportamentos traçados pelas sutilezas dos dramas, discutidos, muitas vezes, com uma ingenuidade marcante.

A pedagogia penetra no cotidiano. As escolas atuam, são importantes, sofrem crises, merecem reformulações urgentes. A maior parte da sociedade se joga, contudo, nas imagens que tanto influem no mundo tecnológico. As normas são ditadas pelas atitudes dos personagens das novelas. As intrigas próximas são esquecidas. As escolhas definem-se nas ações que mostram interpretações contagiantes. É claro que há tensões e desistências. Tudo se mistura, mas seduz com eficácia.

Portanto, as manipulações se sofisticam, criam sociabilidades rápidas, com horários estabelecidos. Será que não necessitamos de inventar outros critérios para periodizar as histórias? Será que existem os grandes acontecimentos, as batalhas gigantescas ou a mídia constrói identidades que nos formam? É sempre  posível observar o que move o social, o que invade seus hábitos, o que emociona e converte afetos?

Os valores são indispensáveis. Basta lembrar Nietzsche ou mesmo mergulhar nas coisas mais triviais do dia a dia. Há motivos para embates que não deixam de retomar o maniqueísmo. A luta do bem contal o mal, do demônio contra o deus, dos solidários contra os egocêntricos. Esquecemos que não somou uma identidade acabada, que o poder se articula para firmar vitória que controlam futuros. Governar é planejar, em todos os sentidos, com as imperfeições comuns de todas as épocas.

Novos temas inquietam valores. O corpo vive dessacralizações, virou uma mercadoria disputada. Quantas empresas acumulam riquezas vendendo seus chamados produtos de beleza? E a quantidade de revistas destinadas a aconselhar modas e estéticas? O território da multiplicidade abre caminhos para especializações frequentes. Os discursos competentes ensinam às pessoas com técnicas ditas científicas. Os lugares do julgamento e da compreensão fogem das éticas tradicionais.

Não é insistência vazia lembrar que a velocidade não é apenas das máquinas. A coisificação é ampla. O tempo é uma mercadoria preciosa e a política é uma vitrine. Os significados não demoram nas suas moradias. Desconfie do que é efêmero. Se o julgamento possui rapidez, qual é possibilidade de arquitetar as críticas e analisar que as diferenças são fabricadas? A passividade diante das imagens produz uma nova forma de analfabetismo. A quem pertencemos ou qual espelho que escolhemos para contemplar?

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