Kafka: as palavras desenham o vazio

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Reclamo das ambiguidades e dos cinismos que cortam o cotidiano. Não faltam denúncias. As tensões existem em todos os lugares.Mesmo com a folia trazendo delírios continuam os desfazeres. Será que a história nunca anulará a desigualdade? Penso que as utopias assanham nostalgias que nunca se concretizaram. Mas as ilusões entram nos desejos. Kafka pediu para que seus escritos fossem queimados. Não foram. Permanecem atuais. Lendo O Castelo, observo as tramas absurdas. As palavras vão e voltam. As pessoas sofrem pesadelos, se cobrem com desgraças, decifram enigmas agressivos, se cobram como  pecadoras desmontadas. não se decifram.

Não é o caos, porém há inutilidades frequentes. O poder fascina, nem os saberes conseguiram arruinar as ambições. Criaram-se expectativas, consagraram lideranças, inventaram leis ditas democráticas. As guerras não se foram, o petróleo atrai disputas e  as acusações fermentam intrigas. Apontam saídas e expandem violências. Sempre as grande riquezas subordinam, congelam rebeldes, entram na onda de discursos falsamente generosos. Os traços das armadilhas firmam escândalos transformados em espetáculos televisivos. Nada transcende.

Kafka envolve, sacode os cinismos da burocracia com uma sutileza singular. As relações humanas ainda conservam travessuras simbólicas opressoras. Procuram-se respostas. N’O Castelo, os fantasmas mudam de espaço, no entanto não abandonam o medo ou mergulham nas aflições. Kafka possui fôlego, não vacila. Arquiteta labirintos. O absurdo traz narrativas. As palavras tentam justificar a sociabilidade que explora exaustivamente. A sociedade não busca se reinventar? As aventuras do século passado inquietam as contradições de hoje? Um grande círculo fecha as portas e deixa as dúvidas torturarem.

Quem capta o movimento da história não foge de muitas mesmices. Kundera que o diga. As acelerações tecnológicas não anulam os paradoxos. Para que serve a energia atômica? Quem se abastece com as reformas? As religiões salvam ou se infiltram em jogos condenáveis? A escrita de  Kafka não se esgota na beleza e na densidade. Não desarrume a memória, imaginando as sagacidades renovadas. Quem se fixa no presentismo intimida e censura. Assassina-se a reflexão  para que as dominações preservem as minorias. Visite Kafka e não se engane com os espelhos dos negócios. Desconfie das acrobacias fabricadas nas vitrines.

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1 Comment »

 
  • Rivelynno disse:

    …eu acho que vivemos num momento hedonista demais na história, o individualismo toma proporções gigantescas e perturbadoras na nossa vida. As práticas vão de atos banais, como entrar numa sala de espera de um ambulatório onde as pessoas assistem tv e alguém resolver checar um vídeo no celular e incomodar a todos com o barulho e não se importar com o incômodo de ninguém; de uma forma mais grave quando a indiferença e a omissão de socorro de alguém que sofre algum acidente na rua na nossa frente e nos apressamos para não chegar atrasado no trabalho. Os afetos e as sensibilidades são necessários, mas eles não são sentidos de forma significativa em nossa vivência, eu constato a sua existência apenas em palavras vazias onde o que se diz não se é demonstrado de verdade. Kafka captou o vazio e a indiferença do seu tempo em relação a sua existência e a existência de pessoas que se tornavam inexistente para os outros. É importante revisita-lo e aprender o quão desumano é a indiferença e a falta de afetos e sensibilidades em relação ao outro. Isto porque somos cultura e como cultura podemos mudar, podemos ser outro, um outro melhor e mais humano. Excelente texto, adoro Kafka e ainda não li ” O castelo” sua obra inacabada…

 

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