Kafka: as profecias estão na história

Vivi muitos episódios. Não penso que existe destino. Há sempre surpresas e estagnações. Nada é transparente. A história tem curvas imensas. Tenho poucas respostas e muitas perguntas. Fico agoniado. Há pessoas que revelam um cinismo inexplicável. Há outras que cuidam si e nem ligam para coletividade. E os agressivos cheios de saberes acadêmicos? Quando sei as aventuras que eles carregam, sinto um toque forte na minha ingenuidade. As ilusões flutuam, os mistérios não desistem, somos animais especiais e ambiciosos. Os espelhos pesam com imagens supremas. A especulação faz parte de um mundo que se perde com suas dores e remendos.

As turbulências atuais ultrapassam expectativas. Houve uma programação para derrubar Dilma, armadilhas planejadas e brigas, íntimas no facebook, debates jurídicos e sentimentais. Tudo deu certo para os conspiradores. O golpe aconteceu, com Temer e Cunha ganhando manchetes. A imprensa parece sem reflexão. Noticia sem formalizar críticas. Alguns se salvam, porém a poderosa Globo dita as cartas. Não pense que não houve luta. Muitos confirmaram suas rebeldias. Nem tudo foi uniforme, com  infindáveis tergiversões e legitimidades desagradáveis. Há atores que ganham cenas cruciais no Congresso Nacional. Os dizeres são, porém, pesados e cínicos.

As coisas vão se engrenando. Preparam-se leis que admitem que o capitalismo está podre. A saída é punir a maioria e manter privilégios seculares. Aparecem consultores, estatísticas fabulosas, dramas. Moro torna-se um herói com fabricação exemplar. Há quem deteste Renan e acha Moro a encarnação da retidão. Não confio na turma que está no poder central. Observo as jogadas. Não sei se é uma comédia ou uma novela das 9. Tenho suspeitas. Sou inquieto, venho do tempo dos autoritarismos explícitos. Hoje, se mistura a autoridade com práticas fascistas. Elas estão por aí:nas padarias, nas esquinas, nos cafés, nas esquinas, nas academias, na mídia….

Não se assuste. Hitler morreu. Lembre que ele foi escolhido, por uma revista da sua época, o homem do ano. Protesto. Não se escolhe a mulher do ano? Quem mantém o machismo atuando e agredindo? Sou historiador, no entanto, não fico gritando pela minha profissão. É preciso ir mais além, não se trancar nos signos da razão. Por que não refazer os humanismos, redefinir as utopias? Por que a escassez de imaginação e o apego ao brilho das vitrines? Encantar-se pela superfície é fácil. Quem sabe se uma conversa com Kafka não faria bem?  Prepare uma mesa redonda com ele, Sartre e Bertrand Russel, coordenada por Fellini. Melhor que seja ao ar livre.

Assim, vamos ou vou. Encontro-me com sonhos de outros momentos. Conservo-os. Não deixo que o tempo passe e eu fique submerso nas verdades dogmáticas. Mantive o desejo de não mergulhar no egocentrismo e acredito que o afeto consegue aproximar e desmanchar tensões. Não sou ligado aos milagres. As incompletudes sempre existirão, as religiões ajudam a respirar, embora estejam poluídas pelas negociações cotidianas. Analiso o profano, suas ousadias. Cuide do seu olhar. Não seja pessimista radical. Não há luzes permanentes, nem sombras definitivas. Elas se namoram como esfinges. Você é profeta?

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