Kafka: metamorfoses brincam com as fantasias

Quem não leu a Metamorfose de Kafka? É um desafio que nos coloca diante de muitos espelhos. Não custa lembrar que as fantasias estão na vida e ajudam a construir as histórias. Já pensou se tudo fosse igual, com uma única cor, sem formas ousadas ou surpreendentes? Quando digo que a cultura é uma imensa arquitetura não estou desperdiçando palavras. A multiplicidade não é exagero ou lugar de anúncios imobiliários. É confuso definir, estabelecer regras, porque o efêmero nos chama e a eternidade tem suas seduções. Por isso que nos balançamos, em trapézios estranhos, mas ninguém pode abandonar as aventuras.

Quantas vezes acordamos duvidando de um sonho que prometia bons encontros e prosperidades? Os sentimentos variam e as identidades não sossegam. Não adianta acreditar em adivinhações. Os economistas não desprezam seus cálculos. Discutem sobre investimentos, queda do euro, desemprego crescente. Fazem seus acertos, porém vacilam. Quem vive sem desconfianças? Kafka descreveu limites, desenhou metáforas, narrou agonias. Não estamos longe das suas páginas densas e criativas. A burocracia prossegue nos envolvendo, mostrando o inútil, fabricando carimbos. O poder não se desvencilha das assinaturas que celebram privilégios. Não cuida de outras leituras que dispensam palavras, porém não esconde amarguras.

O real e a ficção costuram seus diálogos. Isso não é novidade. Tenho dificuldade de lidar com as fronteiras. Não acredito muito que elas existem. O real e ficção possuem semelhanças indiscutíveis. Parece que estou consagrou uma verdade perigosa. Será? As brincadeiras da vida mudam, sofisticam-se, disfarçam máscaras. Quando as regras se fixam não é preciso desespero. O movimento do tempo não costuma afastar os desejos e o inesperado não adormece. O sono e o sonho também se misturam. Talvez, sejamos insetos especiais, com hábitos singulares e rebeldias instáveis. Kafka tinha razão? Suas ficções sobrevivem? Como negá-las?

Mergulhados em instituições, transitamos. Modifico a pessoa do verbo para restar sozinho nas minhas reflexões. Portanto, não se abalem com as conjugações, nem reclamem do texto exigindo ares acadêmicos. Escrever é conversar, derrubar prisões, soltar pássaros. Há escritos fechados, entusiasmados com a metafísica e firmando a supremacia da ciência. Tudo se expande, porque não podemos comemorar restrições. Ora buscamos companhias, ora legitimamos solidões. Existem as ordens nunca definitivas. Se há medos, há o desconhecido. Estamos numa navegação que não recusa turbulências. Será que o inconsciente é mais um voo torto de Freud?

Hoje, sacudimos a memória e encontramos Kafka. Talvez, os tantos desfazeres cotidianos nos levem a reconfigurar as histórias nem anular passados, nem desenhar progressos retomando os delírios do século XIX. A sociedade enche-se de novidades, porém se perde no meio dos descartáveis. Luxo e lixo dividindo espaços, aguardando o fim da miséria ou a concentração das riquezas. Muito dualismo que empobrece a possibilidade de fugir da mediocridade. É necessário que a utopia se guarde. Se a indiferença dimensiona as competições é porque o capitalismo não se desliga da exploração. Se estiver  perplexo ou paralisado não penetre nos labirintos. Não se  esqueça de Prometeu. Ela não calou, nem negou que a dor existe.

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