Lá se vai mais um Carnaval

O Carnaval traz a inquietude e balança a cidade. Suas máscaras desenhadas, suas fantasias inesperadas, sua alegria flutuante se misturam com o interesse em vivenciar dias especiais, fora da mesmice. Há, porém, um grande cerco dos patrocínios e ações das políticas pragmáticas. Nem por isso, o entusiasmo se vai. O mundo é o da multiplicidade. Tudo termina se misturando, nem mesmo a força da chuva conseguiu inibir os admiradores dos malabarismos cotidianos. É ritual festivo de sedução indiscutível. As multidões garantem sua animação, com todas as dificuldades que podem aparecer.

Muitos reclamam que não se brinca mais Carnaval como antigamente. Falta proximidade, há violência solta e pouco espaço para o corpo se espalhar. As cidades se transformaram nas últimas décadas, não só devido ao crescimento da população, mas com  a chegada de novos hábitos e a entrada de invenções que requerem outros comportamentos. Há quem se adapte, siga na folia. São escolhas. Fica perigoso estabelecer hierarquias. Quem brinca o Carnaval, pela primeira vez, não avalia como era antes organizado. Seu ânimo encontra-se com caminhos diferentes. Portanto, a história não é a continuidade absoluta, a nostalgia existe, porém as relações se refazem e se renovam. Nem por isso, o passado se desmancha e a memória joga fora suas chaves.

Numa sociedade de consumo, os interesses econômicos pedem agilidade no comércio. O Carnaval é um cenário singular para venda de mercadorias. Faz parte do calendário das comemorações. A cidade se recompõe para recebê-lo. Ambulantes nas ruas, barrancas com bebidas, fantasias de todo tipo. O lucro é esperado, não é ensaio. O consumo exige movimento e envolve. Poucos escapam das suas iscas. Ele fabrica necessidades, provoca comparações, atiça vaidades. Quanto mais produtos, mais desejos flutuando, mais trocas no mundo que vive, também, do aparecer e da montagem de espelhos pessoais.

Os espaços públicos são ocupados. Há estratégias políticas montadas para aproveitar os resultados dos contatos com a população. Os grandes momentos contam com deputados, governadores, vereadores, prefeitos ávidos pelo reconhecimento, de olhos nas eleições. Todos conhecem a importância dos meios de comunicação. Querem sobreviver. O poder possui privilégios e a coletividade exige ações. Pão e circo é fórmula antiga e eficiente. Cada vez mais sofisticada. Não estamos nos anos 1950, mas na famosa aldeia global, com suas virtualidades. As coberturas da TVs valem o esforço de curtir um temporal ou fingir paixão pelo toque do frevo. Seria impossível a existência de uma folia neutra, sem as artimanhas do poder.

Tudo passa. O cotidiano mais árduo retorna, o espetáculo muda de direção. Identidades são recolhidas, disciplinas retomadas, rituais de trabalho focalizados. Não há como celebrar eternamente, nem tampouco ficar no sufoco dos expedientes, sem atmosfera que mexam com a imaginação. É o ritmo da cultura. Sua complexidade não cessa, pois a construção de tecnologias influencia no modo de viver e nos seus afetos. O mundo do celular e do computador tem suas alucinações. Mas quem pode negá-los? O Carnaval está na mira dos negócios, não, apenas, nas aventuras que quebram a mesmice e o olhar cansado das burocracias.

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