Lady Gaga, intimidade, idolatria, solidão

 

Lady Gaga tem 12 milhões de seguidores no Twitter. Inacreditável. Lembra as magias da Idade Média ou os duendes tão exaltados nas histórias infantis. Seu toque, nas teclas, seduz e arrasta corações. Não entendo muito como essas relações funcionam. Sei que ela é famosa, possui  carisma e consegue amplos espaços na mídia. Não tenho como julgá-la, nem penso em ser avaliador das comunicações virtuais. Mas confesso que o número me assustou. Não é uma caso isolado. A fama traz mudanças nas sociabilidades. Imagine outras estrelas e seus movimentos. Agregando todos, qual seria a população total dos Twitters de Ronaldo, Luan, Ivete Sangalo e Cia.? 

A vida dividida com multidões. Desafios constantes às leis da intimidade. Elas flutuam. Quem está com o domínio do público e do privado nas redes sociais? Quais são os segredos guardados, as angústias reveladas, os amores desfeitos, as paixões espalhadas? Os meios de comunicação provocam reviravolta na convivência. As instituições precisam ser repensadas, pois o cerco da velocidade caminha sem cerimônia. Muita mudança, em pouco tempo, desfaz o fôlego. Há quem se dedique a brincar com as invenções modernas com ansiedades doentias. Nem tudo é saudável, o universo da fama disfarça  fragilidades.

O mundo atual compõe idolatrias efêmeras. Não pode passar sem elas. A morte de Winehouse produz indagações que, ainda, transtornam admiradores. A vida desconsertada da artista tinha seguidores. Portanto, estabelecer modelos não é a chave da questão. O grande apoio da mídia é, no entanto, fundamental. As qualidades se confundem. A fama anuncia a virtude, a rebeldia, o conservadorismo. Os valores múltiplos ganham metamorfoses contínuas. Não estamos longe da década de 1960, das reclamações dos hippies, dos protestos contra a burocracia. Houve  polêmicas sobre a sexualidade e o uso das drogas. Depois, surgiu uma onda de conservadorismo que silenciou muita gente. Os símbolos dos momentos de transgressão esvaziaram-se no mercado de consumo.

A internet marca a pós-modernidade e a construção da afetividade atual. Ninguém pode conhecer todos os seus seguidores do Twitter. Ficamos na superfície, na troca de mensagens curtas, sem ousadias. Promovem-se, também, escândalos, fofocas internacionais e acidentes diplomáticos. Os ídolos aparecem, recordam significados das antigas religiosidades, mas as manipulações não garantem princípios ou transparência na fabricação de aparatos monumentais. O desejo corre solto em busca de comportamentos renovadores, esquecidos de que há interesses e negociações de bastidores. As ressacas e as frustrações não são estranhas às agitações contemporâneas.

A incansável sofisticação da tecnologia é visível. Quando se cogitava que a ciência reforçaria a autonomia, deu-se o contrário. A perda das noções de limites agonia quem cuida das relações entre os sentimentos. Acessamos máquinas, de complexidade ressaltada, que controlam a agenda cotidiana. Temos, inclusive, que criar  alfabetos para compreender os códigos de funcionamento. Tudo está acontecendo numa circulação intensa que sacode a memória e redefine  o conceito de tempo. Não é que as fronteiras tenham desaparecido, no entanto o invisível e o virtual assumem poderes que perturbam a serenidade e a contemplação. A quantidade, que se acumula, desenha delírios, rascunha imagens de deuses. Quem se salva da solidão?

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8 Comments »

 
  • Zélia Gominho disse:

    Chega o e-mail: “fulano quer ser seu amigo”. Mas, quem é essa pessoa? Por que ela quer ser minha amiga? O que é ser “amigo” no Face, ou “seguidor” no Twiter? Relações muito estranhas se estabelecem. O engraçado é que se trocam mensagens, mas, face a face, raramente comentamos sobre o que foi postado ou trocado no mundo da Net. Relações virtuais estranhas, virtuais mesmo.

  • Julio Cesar Silva disse:

    As necessidades humanas de padrões mais elevados do que os nossos, que pudessem nos guiar em nossa estadia por aqui, são antigas. Criamos os deuses tendo em vista a contemplação daquilo que jamais seremos. Não acontece o contrário com estas celebridades mundo à fora. Não nos bastamos. Se não temos uma âncora, um subterfúgio padronizado, institucinalizado, um sentimento visível, como o amor, para demonstrar aos outros que somos humanos, que também estamos nesta roda de dependência criada por nós mesmos, ficamos à parte, marginalizados; porém , os que se esquivam disto acabam livres para observar estas incoerências. Criamos os monstros, eles desfalecem, e, consequentemente, nós também.

  • Júlio

    O mitos existem em todas as sociedade. O problema é que, muitas vezes, representam o vazio e a carência desmedida. A crítica traz possibilidade de pensar como eles podem nos esclarecer ou nos sufocar.
    abs
    antonio

  • Zélia

    Mudou muito a intimidade ou a vontade de cultivar certa privacidade. As fronteiras se diluem.
    abs
    antonio

  • Gleidson Lins disse:

    as redes sociais estão criando uma geração de vaidosos. Os seguidores virtuais dos grandes ídolos são em sua maioria jovens que o fazem porque algum amigo o fez, e ele não quer ser diferente. Os números servem para direcionar esforços para obtenção de maiores lucros por aqueles seguidos. Triste ilusão cibernética.

    Abs,
    Gleidson Lins

  • Gleidson

    Boa observação, mas as coisa não vão mudar, pois a sofisticação aumenta e seduz.
    abs
    antonio paulo

  • Rafael Ferreira disse:

    Acho que o mundo sempre esteve e sempre estará em constante transformação, para cada época os movimentos modernos eram perigosos, destrutivos e criticados por quem não os seguia, contudo atualmente apreciamos e valorizamos. Creio que da mesma forma esse tempo será lembrado como os hippies, descontrolados, fora dos padrões e insanos, mas ficaremos para trás, seremos apenas um movimento, lembrado e valorizado e outros movimentos seram criados e aceitos, pois na minha visão são apenas adaptações.

  • Rafael

    O mundo vive de controvérsias, na construção de ordens e transgressões.
    abs
    antonio paulo

 

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