Leituras do mundo: Gabriel, Piazzola, Auster, Belchior

A palavra mundo possui uma magia. Busco significados e não encontro. Há mistérios, perplexidades, labirintos. Todo o dia conversamos sobre o mundo. Surgem descobertas, frustrações, expectativas. As mudanças existem, mas não esqueça os disfarces. Soltaram-se as interpretações de todas as cores. O mundo voa, como pássaros agoniados, e descansa, como gigantes pesados. A escrita não consegue esgotá-lo. Muita gente, muitos espetáculos, muitas ruas escuras, muitos assassinos anônimos, muita vontade de redefinir os paraísos. O teatro não se encerra.

Gabriel Garcia inventou Macondo. Misturou-se com tanta coisa e se tatuou com a beleza. Ninguém pode deixar de ler Cem anos de solidão. É um mundo de fábulas e verdades, de loucuras e de desfazeres. Não é possível cantar a imensa imaginação dos personagens e dos seus lugares . Não fico por aí. Lembro-me de Paul Auster perdido na construção da sua identidade. É preciosa a sua escrita, sua tentativa de compreender os acasos. Quem já mergulhou n’ A invenção da solidão? Diálogo com quem brinca com as palavras nos aproxima dos tapetes mágicos.

Contemplar o mundo é necessário. Não se canse com as formas, nem adivinhe os destinos superficiais. Ouça o silêncio, engane os ruídos, marque um encontro com Freud no divã de sua casa. Piazzolla deixou a vida, mas sua música é o espelho do mundo encantado. Não pense que a morte é o fim da história. É um outro começo. Belchior está na celebração. Há saudações a sua obra. Não gostava de construir vitrines. Reapareceu, trouxe polêmicas, ressuscitou vibrações. Portanto, não fixe verdade, nem se escandalize com o outro. A viagem do mundo é acidentada e surpreendente.

Belchior não fechou os olhos para as repetições. Saiu do mundo, estando no mundo.Os nossos pais merecem toda atenção nas aventuras das letras proféticas. Consigo me recordar de muita coisa, mas o passado se movimenta. Somos muitos e o tempo nunca será linear. Há quem reflita sobre o futuro do passado, quem se fascine com as lendas de Adão e Eva. Não cabe fechar as portas e as janelas do mundo, nem anunciar mortes que não existem. Estamos nos sacudindo nas saudades e nas paixões repentinas. De repente, o balanço se encontra com o trapézio no circo da avenida central e Prometeu ressurge na história de um músico latino-americano. O delírio não se apaga. Há quem não se livre das ansiedades da salvação.

Nas leituras do mundo, não se sufoque. Risque a escassez, seja alguém com sonhos e amarguras. Não se empolgue com ídolos eternos, porém configure a incompletude, as faltas, os mitos que atravessam os instantes mais estranhos. Navegar sem cais luminoso pode ser um desperdício. Os mares têm nomes, a poesia ensina a medir os enganos. No espaço estreito, há fórmulas esquecidas. Tudo circula, a velocidade não é uniforme. Faça uma leitura das suas covardias. O mundo não abomina o sentimento. Sente seus desequilíbrios. Belchior anunciou o juízo final ou trouxe decifrações inesquecíveis? Transformou o profano no sagrado, acelerou os corações vadios.Disse não ao sim, sem relevar o peso dos pecados vividos.

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