Linguagem e palavras abreviadas: perdas afetivas

Não tenho constrangimento em repetir: a maior invenção da cultura é a conversa. É claro que pode haver contatos sem palavras. Elas garantem, porém, a fluência. Já pensou um narrador sem intimidade com os verbos, com dificuldade de exprimir o vivido? Sente-se, nos tempos atuais, uma falta de paciência para esticar os assuntos. Vivemos cultivando informações. Há quem se alimente das manchetes. Acha que os jornais da TV trazem a grande síntese do cotidiano. Não percebe que a notícia está vestida de interesses. Manipular os fatos é uma arma que ajuda na dominação, satisfazendo os planos do vencedor e alargando territórios de sedução.

Há quem queora consegue se dá com as palavras para segurar posições sociais e justifica hierarquias. O controle é feito, então, com muita técnica. Não há improvisações. As propagandas têm alvo, procuram eficiência, multiplicam investimentos. O mundo é povoado de imagens, mas elas não sobrevivem sem um vocabulário, sem anseios de interpretação. Viver é muito perigoso; e não é não. Nem sei explicar essas coisas (Guimarães Rosa). Contar o que se passa, o que nos enreda traz alívios e compreensões. Fermenta sociabilidades e atrai convivências. O silêncio e apatia podem, muitas vezes, concretizar isolamentos e melancolias.

O sentimento não se mostra, apenas, com palavras. Os gestos significam, um olhar possui encantamentos. A palavra não está morta ou moribunda. A pressa limita contemplações maiores e exige economias. Onde antes havia afirmações, versos de poemas, hoje existem resumos, sinais que inauguram códigos surpreendentes. Somos, constantemente, (re)alfabetizados. Uma visita  às redes sociais é importante para observar como os pensamentos se deslocam, como a cronologia da história usa ornamentos e pede urgência. Uma linguagem construída se conecta com dimensões estéticas e formas de sensibilidade que modificam afetividades. Não estamos na época de Proust, de Dali, de Chaplin… Nem por isso, devemos firmar um muro de lamentações, anunciar o apocalipse, o fracasso da cultura. 

O tempo nos envolve, não adianta seguir a vida, sem acompanhar seus movimentos. Se optarmos pela linearidade, corremos o risco de anular o passado. A conversa se restringe ao aqui e ao agora, as palavras se escondem, pois a novidade ganha espaço desmesurado. O tempo possui várias entradas e saídas que não inúteis e nos fazem compreender as cartografias das  permanências e descontinuidade. Ideia nova que imaginei: que, mesmo pessoa amiga e cortês, virando patrão da gente, vira mais rude e reprovante (Guimarães Rosa). Como soltar-se no entendimento das armadilhas da vida sem escutar a experiência?

A timidez no falar impede, muitas vezes, que a narrativa configure o vaivém do sentimento. Esconde. O mundo demanda outras caminhadas, não dá para ignorá-lo. Seus ruídos resultam das nossas invenções. Nomeamos o que criamos.No entanto, as palavras não precisam coincidir com as coisas inventadas, imitando tecnologias, querendo esclarecimentos definitivos. Essa insistência em racionalizar e fragmentar cada ato confunde. Comunicar, apenas, porque existem celulares e computadores é pouco. Consagrar os e-mails como a via do entendimento é decretar o sumiço lento das palavras. Será que já não temos o que dizer? Por quê? E as travessias?

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4 Comments »

 
  • Flávia disse:

    Olá Antonio,
    Em um texto recente você nos disse que “há um silêncio que incomoda, quando vemos o desfazer de liberdades e a quietude da maioria.”
    Nas linhas e entrelinhas da “Astúcia de Ulisses”, aprendemos (sem abreviar o verbo)que as palavras engendram a vida e movimentam a história.
    São elas as amigas das travessuras, dos trapézios, dos palhaços, das fantasias, das utopias, das distrações, das decepções, da solidariedade, dos afetos.
    Elas têm nos ensinado até a “acordar os mitos para que eles interpretem a vida.” Além de compreender que “a morada de cada homem esconde o que se desfaria no mundo”…
    Por isso Antonio, não tenha constrangimento em reafirmar que “a maior invenção da cultura é a conversa.”
    Pois como você ensinou, é ela que não nos deixa desfazer dos afetos, dos vínculos, dos contatos, do encantamento pelo mundo. E enquanto tivermos contadores de histórias, poetas, compositores… para nomear, ressignificar, humanizar o que inventamos, faremos sim muitas travessias “linguageiras”. E tantas travessuras quantas couberem no nosso texto, na nossa ousadia, na nossa utopia, na PALAVRA que quando tecida/narrada possibilita o crescer, o viver.
    Obrigada pelo belo retorno do carnaval!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    Bom encontrá-la por aqui. Seu comentário está pleno. Vamos levar adiante as conversas, soltar as palavras. O mundo não pode abraçar a apatia. Seria a mediocridade e o desterro.
    bjs
    antonio

  • Zélia Gominho disse:

    Sempre me lembro de sua recomendação no final de uma das minhas resenhas na graduação, mais ou menos assim: se coloque mais; exponha mais o que você pensa. Tento seguí-la até hoje. Pena que o corre-corre cotidiano nos limite tanto. Tenho apreciado muito seus posts no Face; já estava a ponto de cancelar minha página, pois a momentos de grande vazio e de muita bobeira, e a sensação de perda de tempo é grande. Fico muito feliz com a sua presença. Seu texto veio de encontro, ou melhor, verbalizou muito do que eu venho pensando. Grande abraço.

  • Zélia

    Sua escrita é preciosa. Merece toda atenção e traz aprendizados. Grato.
    abs
    antonio

 

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