Lula: as curvas da vida e a história de cada um

Quem sabe medir o tamanho do seu tempo? É uma pergunta que não chama resposta conclusiva. A vida corre ou é paciente. Com toda sapiência dos conhecimentos científicos ou das transcendências do sensível, vagamos sem um porto que ampare todas  nossas incertezas. Portanto, não há razões para se encher de culpas e sepultar o passado. Há sequências que requerem ousadias. Nada de dispensar a memória e afogar os desconfortos momentâneos.Dividir as dores não é demérito. Humaniza, mostra que o isolamento é o peso mais cruel dos infortúnios.

Lula fez 66 anos, com comemorações de amigos e a admiração que a fama acolhe. Foi surpreendido por um diagnóstico desnorteante. Soube que está com câncer na laringe. Um sinal negativo que traz deslocamentos nos projetos e reflexões. A notícia logo se propagou. Não há como guardar segredos. Ele é um homem público, não importa que esteja fora de cargos. Mesmo no campo da política, onde as discordâncias circulam, o espaço da solidariedade não se esconde. Não faltaram pronunciamentos, repercussões na imprensa internacional. Lula se encontra na estrada da vida, compartilha andanças. Não se acanha de seguir adiante.

Surgirão muitas especulações. Foi um choque na política, um toque profundo em sentimentos. A vida desarma, atiça amarguras, mas não é parceira da exatidão. Cultiva permanências, atmosferas sombrias. No entanto, as histórias possuem atalhos, desmancham o incomum, reviram verdades. Ninguém ousa prever o desenho firme do amanhã. Ninguém despreza a conversa e o lamento, observando as geometrias dos abismos e o desejo de inventar calmarias. Quem se insere nos ruídos da  fama tem seus sossegos ameaçados frequentemente. O público e o privado riscam fronteiras, incomodando as intimidades e os silêncios.

Há cenários montados, mesmo que as dúvidas persistam e as ansiedades hesitem. Imagine o que se pensa sobre as travessias de Lula. Imagine a quantidade de afirmações que se multiplicarão com as notícias recentes. A inquietude acompanha quem se lança no mundo e possui olhares buliçosos. Os meios de comunicação destroem armaduras. Investigam, desnudam, vestem o avesso. Portanto, se Lula gostaria de ser cercado de  serenidade para ultrapassar os impasses, enfrentará dificuldades, pois a exposição da sua imagem será  intensa. A novidade é mercadoria de alto valor na sociedade da informação. Toda agitação nunca consegue manter um único ritmo. As dissonâncias existem, os descuidos se firmam e o tempo muda de forma e de cor. Há impactos e esvaziamentos.

Com certeza, estaremos, mais à frente, analisando outros encontros, desfazendo profecias, cogitando arrumações nas relações sociais que pareciam consolidadas. O vaivém da história rouba da vida o enfadonho, a faz mudar de barcos e travesseiros. Certos sonhos se apagam, porém a criatividade sacode as apatias que pareciam eternas. Lula moverá forças, se envolverá com  batidas do coração esquecidas. A sociedade assistirá a tudo, assuntando e no suspense. Há quem conte com a concentração das orações ou com os saberes crescentes da ciência. Sobrarão anúncios malditos, ânimos exaltados, assombrações revisitadas. A história de cada um cabe nas histórias de todos, desde que o individualismo não reforçe, sempre, os descontroles de Narciso.

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6 Comments »

 
  • DIÓGENES disse:

    O público e o privado se misturam hoje, o câncer mostra a fragilidade humana e ao mesmo tempo revela como uma sociedade pode mostrar sua solidariedade, Lula, Hebe, Dilma, Gianechini, enfim pertencentes a mídia todos especulam algo, mas um cidadão comum…
    Realmente a novidade é mercadoria, principalmente se partir de pessoas que ocupam a elite.

  • Diógenes

    A vida é mesmo cheia de curvas. Surpreende.Mas teremos muitas especulações. Lula é um nome que atrai, pois tem fama e liderança
    abs
    antonio

  • Flávia Campos disse:

    Antonio,
    Longe da terrinha é que percebemos como o território
    é fundante do nosso viver.
    Nossa gente, o ar que respiramos, o ir e vir da cidade, o cenário do país,nos enraízam de tal forma que não percebemos, com clareza, sua grandiosidade/sua importância no nosso afogado cotidiano.
    Se afastar, sentir saudades, retornar, nos situar do momento presente… Tudo isso nos aproxima, ainda mais, do que parecia ter ficado para trás.
    A empatia, a solidariedade, a fraternidade, o afeto, parece nos convocar a uma tomada de posição mais contundente.
    O tempo urge e nos avisa a todo instante que a vida é breve.
    Ela só não é efêmera para os que lutam, para os partilham a existência humana, para os que ressignificam a própria vida e a vida coletiva, possibilitando que “a história de cada um pertença as histórias de todos”. Que a história de alguns sirvam de referências para outros e motivem a solidariedade de muitos.
    É muito bom estar de volta à travessias brasileiras, aos mares de Ulisses, às reflexões de Rezende!!!
    Bjs
    Flávia

  • Taiguara C. Rocha disse:

    Em uma situação dessas, pouco importa o barulho da mídia. O maior desejo do paciente é se sentir vivo, e mais vale várias visitas apoiando do que o silêncio solitário. Qual o sentimento de ter, para além das fronteiras do país, boa parte do mundo torcendo por sua recuperação? “Câncer” é uma palavra pesada, carregada, e sua descoberta é um golpe duro para o animo, mesmo nos casos menos complicados como o do ex-presidente ou o da minha mãe. Mainha, Tia Socorro ou Corrinha luta esse ano contra uma doença que no passado foi estigmatizada como fatal, e por isso até seu nome é evitado. É belo ver, frente ao desespero e às dificuldades, a solidariedade expandir, e no caso de Lula as proporções são muito maiores.

  • Taiguara

    Nesses momentos, o afeto é tudo. Sentir que avida continua e há tempo para segui-la..
    abs
    antonio paulo

  • Flávia

    Espero que esteja bem refeita. É isso: a vida se faz com as solidariedades. Isolados, naufragamos.
    bjs
    antonio paulo

 

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