Macondo (Cem anos de solidão – uma magia)

                                  Como se na sobrevivência de cada um,

as verdades se misturassem com as mentiras

para poder acalentar o sonho,

iludindo a máscara medonha do trágico.

O que se quebra nunca se reanima diante dos olhos.

Como uma revelação contínua,

como uma ferrugem de uma chave abandonada.

O que se quebra não merece recomeço,

é um disfarce para quem não distingue a complexidade do real.

Entrelaçam-se narrativas que fazem desconfiar de qualquer razão,

para explicar o mundo, para se celebrar o descompasso do que se perdeu.

Os cacos são mínimos, disformes, anêmicos,

espalhados nas portas das moradias solitárias.

Como se cada Buendía simbolizasse um universo. 

A vida não é testemunha do que se fragiliza anonimamente.

Fecha-se o ciclo, pois a morte está anunciada nas escrituras de Gabriel,

com seus espelhos enterrados na esquinas dos fantasmas

das calles com mais de cem anos de solidão.

Não se impressione, nem se inquiete com as assombrações.

Vista-se com os significados das metáforas fugidias,

para, contraditoriamente, não se afastar dos encantos enraizados,

em todas as paixões que se perdem pelo mundo.

O sempre é uma permanência que apenas a linguagem exige e a linguagem

é uma das imagens mais traiçoeiras da vida.

O que tem história está na memória,

É o instantâneo nas invenções mágicas do cigano Melquíades.

Os arcanjos tecem suas auras de fogo,

como os Buendías construíram a saga de Macondo.

São divertimentos soltos, como trapezistas insolentes, beija-flores estranhamente monogâmicos num jardim com flores sedutoras e cheias de viço.

Quem contou, manteve a vida fora do esquecimento,

Na síntese poética da solidão, a preguiça de ver o que está lá fora,

incomodando as paisagens de cada sopro do tempo desgovernado.

Enfim, cabemos em tudo.

Somos os outros e nós mesmos,

passageiros de uma eternidade lúdica,

viajando nas asas das borboletas amarelas.

Narrativas vadias, mas de carne e osso, sem ausência de dor,

nem de mistério, desenhando os rostos ocultos dos que não têm nomes.

Na perdição das palavras que tropeçaram nas ruínas sem luzes de Macondo.

 

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>