Memória, desejo, imaginação, narrativa

Memória e desejo se conjugam, desafiando a imaginação. A arte se insere na fabrica da pesquisa de textos, porque não há tempo mortos e sepultados. O historiador (res)significa, se envolve com o eterno retorno. Não deve esquecer-se que os grandes mestres da prosa foram também quase  sempre poetas, quer publicamente, quer apenas em segredo, na intimidade; não é efetivamente senão em vista da poesia que se escreve boa prosa!(Nietzsche) A história não é a consagração do instituído, da verdade confirmada pelos arautos do poder. Ela busca o instituinte, acolhe as rebeldias, provoca conversas da ordem com a ruptura. Há hegemonias estabelecidas, mas nunca perenes e indiscutíveis.

É importante recordar que  totalitarismos se desfizeram. O medo de suas violências incomensuráveis não os fez permanentes, mesmo que tenham procurado pactos com as religiões e eternidades. Franco e Salazar possuíam relações estreitas com a Igreja Católica. Ela ajudou a  contrariar os esforços de democratizar a sociedade. Não é novidade. A história continua sendo espaço de perseguições. Basta visualizar o que acontece nas disputas recentes no Oriente Médio, os choques constantes entre muçulmanos e cristãos.

O vaivém da história registra que a cultura não vive sem interpretações. Ela institui hermêuticas e estrutura  gramáticas. As linguagens se reinventam para que a cultura não se esconda e consiga pentrar no obscuro. A verdade é curva, assim escutava Zaratustra, embora não escapemos dos sentidos imaginários e dos pesadelos construídos em plena luz do dia. Narramos as histórias na busca de criar sentidos. Eles não são pré-determinados. A narrativa traz sentimentos , olhares subjetivos, malabarismos do inconsciente, esquizofrenias perdidas nas infâncias tardias. O tempo é negação e confirmação do ser: negação, já que o suprime;  confirmação já que o supõe. É por isso que há movimento, mudança, história (Comte-Sponville).

A narrativa exercita possibilidades, espreguiça-se pelos territórios, aparentemente, insondáveis da vida. Não dispensa a força do que vem de dentro, não assimila apenas o visível. Nessa perspectiva, a história é o encontro com a narrativa. Pamuk não descreve Istambul para se distrair e enganar amarguras. Istambul mora no traço mais secreto da sua trama, nos segredos que transcendem sua memória voluntária. Nem sempre, compreender é mensurar datas e aprisionar sucessões. Muitas vezes, é na volta para o que parecia desmantelado que tocamos no fio de Ariadne. É preciso, contudo, paciência e contemplação. Os desenhos dos labirintos, que configuram a cartografia das histórias, são móveis. Nunca saberemos a extensão das suas trilhas.

O texto que escrevemos existe porque ele pede ponto final, mesmo que silencioso e  inútil. Somos nômades e efêmeros, porém procuramos os portos das eternidades e as embarcações que enganam as turbulências das águas. Temos as memórias de Prometeu e Narciso, guardadas nos cofres da solidão. A narrativa é o nosso leito, desde que o sonho seja lento e aconchegante. Nossas madrugadas possuem luzes e sombras. Sobram histórias, narrativas, culturas. Falta o olhar cuidadoso para o outro, porque a teoria se descola da vida e, muitas vezes, alimenta a arrogância. Na quebra da sociabilidade, somos testemunhas dos absurdos do inferno.

PS: Este post continua o do dia anterior, apresentado no encontro promovido pela UNEB, com as devidas adaptações.

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