Memórias inquietas: o golpe político-militar de 1964

Quando tinha quase 12 anos, em março de 1964, se deu o golpe político-militar que derrubou o governo de João Goulart. Pregava-se o fim do perigo comunista que assombrava grupos sociais significativos. Queriam ordem e nacionalismo, nada de aventuras trabalhistas e sindicais. Houve reações, mas muita gente simpatizou com o ato. Não gostei. Fiquei desconfiado, apesar da confusão das ideias e das pressões familiares. Ocorreram prisões, fugas do país. A  repressão atuou intimidando os insatisfeitos. Os dados estavam lançados. A sorte de certos ideais recuava e opressão sufocava, sem medidas.

Tinha razão. Fechou-se o tempo. Censura, violência, autoritarismo. A democracia desmontou-se, com todos seus sinais. Os vencedores não desprezaram a propaganda. Exaltaram a modernização e abriram espaços para entrada do capital estrangeiro. Promessas se multiplicavam. Procuravam criar uma atmosfera de certezas e reencontros com verdades disciplinadoras, longe de badernas e rebeldias. Assim, firmava-se a centralização política. O Brasil afastava-se, mais uma vez, do debate dos sonhos de igualdade. A intolerância servia aos senhores do controle social. Bancas de jornal foram queimadas, a impressa amordaçada.

Havia os eufóricos que celebravam a situação. Havia os inquietos que buscavam saídas, a volta da possibilidade de contestar.O aparelho repressivo não hesitava. Contou com a ajuda de grupos considerados conservadores, donos de propriedades e riquezas. O caminho de muitos foi silenciado. Venderam-se esperanças de que o desenvolvimento salvaria nação de seus pecados capitais. O golpe conectou-se com ações norte-americanas. Os Estados Unidos temia ameaças socialistas e  destruíam quem pudesse ter semelhanças com Cuba. Era a época em que se falava de direita e esquerda, em imperialismo e a linguagem política abrangia outras concepções. As desconfianças tinham outras configurações e a força da internet pertencia às futuras especulações da ciência.

Vivi esses anos, com muita expectativa, acompanhando a história com atenção atiçada.  Os anos demoraram a passar. As tensões provocavam inseguranças, mas os ruídos se organizaram e começaram a oferecer resistências mais eficazes. A violência já não encontrava muito eco. A economia se fragilizava e o discurso dominante perdeu seu entusiasmo soberano. Povo nas ruas, greves no ABC, lideranças despertando para renovação. Os governantes sentiam o impacto.  Nada se mantém para sempre. Os incômodos se formavam e desacreditavam  mentiras que impressionavam no passado. O perfume da liberdade se espalhava, trazendo aberturas e sensibilidades diferentes. Rascunhavam-se projetos que desafiavam os donos dos poderes.

O mundo ferveu com manifestações culturais dos anos 1960. Elas afirmaram perspectivas inesperadas. Enfranqueceram governos, trouxeram a polícia para o asfalto e respiraram o fogo da juventude. Eu curtia o desejo de mudança e se envolvia com os assanhamentos gerais. Nada de fugir das controvérsias.  Na minha formação, preocupei-me com o coletivo, avesso aos admiradores da ordem armada. Parece esquisito mergulhar nessas lembranças de maneira tão aguda. No entanto, vejo, ainda hoje, lacunas  políticas incríveis. Isso fere, arranha, desacredita. O diálogo com a memória acorda tempos. Consagrar a marcha do progresso é perde-se na anemia dos descompromissados com os entrelaçamentos das esperanças. Os autoritarismos persistem e pedem passagem. Até quando será permanente o fantasma da censura?

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