Memórias políticas, redefinições históricas

Lembro-me de março de 1964. Era ainda muito pequeno para compreender o buraco que estava se abrindo. Mas observava frustrações, vinganças, desejos de manipulação, violências. A sociedade dividida, as radicalidades minando as negociações. Havia perplexidades e, como sempre, ideias salvacionistas. Muitos falavam em uma revolução que transformaria o Brasil. Foi um movimento múltiplo e não uma rebelião isolada de militares conservadores. As histerias, os boatos, as perseguições, as palavras de ordem nacionalistas ganhavam espaços.

Depois, chegam os dissabores agudos. O autoritarismo não resolvia os grandes impasses.A sociedade exigia respostas, se aborrecia com a inflação, sentia-se oprimida. Nas ruas, expressava descontentamento. Lideranças se formavam e os donos do poder perdiam força. Voltaram as eleições diretas. Ressurgiram projetos políticos, a busca por outros caminhos animava boa parte da população. Novas atmosferas definiam a estruturação de partidos e os debates esclareciam contradições. A política gira com a história,  movimenta-se, descontrola-se, reinventa-se.

A convivência com a crise faz parte da política. Os discursos mudam, como também a forma de anunciá-los. No mundo da tecnologia é preciso ficar atento, pois as estratégias se diversificam rapidamente. A memória sofre com derrubada de tradições. A crítica veloz anima os os ansiosos. Criam-se tensões contínuas. As ruas não deixam de ser um cenário. Os apelos são porém outros, a mistura de projetos é inesperada e , muitas vezes, oportunista. A história alimenta-se de ambições que, antes, se diziam impossíveis. Não se observa que o conhecimento do que foi vivido é importante para se redefinir as escolhas.

Os governos desprezam  diálogos, retomam soluções, convivem com agonias, perdidos em busca de fórmulas. Os militantes se vestem com  modas que lembram antigos ódios e preconceitos. Grandes confusões. Muitos não se tocam que a democracia tem sido um sonho e que é não há política sem lutas. Querer harmonias consolidadas é uma utopia desconsolada. Portanto, as instabilidades se casam com as polêmicas. Há sentimentos de raiva, formam-se grupos que não olham possíveis solidariedades. Quem acredita na “evolução” fica desenganado com as repetições. Reforçam-se os olhares fragmentados e exclusivistas.

Transformar a sociedade deveria fixar-se no cotidiano. Nem todos, contudo, se preocupam com o coletivo.  A miséria não descontinua e a exploração se não deixa de produzir vítimas. Tudo leva a inquietações quando as alternativas batem em nuvens sombrias. No mundo das mercadorias, as pessoas se acostumaram com o consumo e com relação vaidosa com os objetos. É o jogo aberto nas disputas de cargos e no cinismo. É o caos ou uma diversão com o acaso? Quem sabe? Os traços da política são sinuosos e a coisificação firma seu mundo mesquinho.

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