Memórias: reencontros com os tempos da vida

Memória: o espaço em que uma coisa acontece pela segunda vez. Essa afirmação do escritor Paul Auster, no seu instigante livro A Invenção da Solidão, sempre me acompanhou. Há muitos debates, entre os historiadores, sobre os significados do passado. Desde as primeiras pesquisas, surgem as perguntas sobre o que fazer com tantas aventuras e desencontros. Aparece, também, a indagação crucial sobre o valor da existência. Recordar para quê? O que ensina o vivido? O que procuramos? Há um sentido em cada leitura, um descanso das atribulações do presente? Tudo inquieta, mas dá ânimo para instituir interpretações. Portanto, deixa a turbulência se balançar no trapézio.

O mundo contemporâneo pede atenção para uma sequência enorme de novidades. Não há condições. Os olhares se gastam. Temos necessidade de silêncios, introspecções, conversas íntimas. Imaginar o passado provoca nostalgias e comparações. É uma ameça, para quem costuma fixar hierarquias e se apaixona pelos feitiços do progresso. Gosto de pensar o diálogo e não a supervalorização de um certo instante. Nem sempre, o crescimento físico traz boas afetividades. A questão da idade possui paradoxos e nos chama para refazer aprendizagens. Querer fixar calendários é impor regras ao inesperado, festejar a mesmice.

Auster tem razão. A memória sacode as lembranças, formata esquecimentos. Não adianta cercá-las de teoremas científicos, elucidar seu vaivém. Existe mais do que a segunda vez. Há momentos que colam, mudam de significados, porém mostram rostos e paisagens conhecidas, vistas inúmeras vezes. O espelho da memória não é uma fotografia imóvel. Será que existe a imobilidade? Heráclito continua ditando suas reflexões? O que fica são as aparências, as sombras, as fantasias? A filosofia vai longe na busca de definir o real e o imaginário. Castoriadis, Freud, Platão, Dilthey e tantos outros agitariam o texto com opiniões e pergunta múltiplas. Não precisa de sofisticação acadêmica. No cotidiano, os exemplos e as dúvidas divulgam aflições e descobertas.

A memória é lugar de reencontro e de negações. Sua caminhada não é a de revelar verdades definitivas. Fustiga o dito e o não dito. Auster move-se no tempo e nos ajuda a animar o debate: Sua vida já não parecia mais habitar o presente. Toda vez que via uma criança, tentava imaginar como pareceria quando crescesse. Toda vez que via uma pessoa velha, tentava imaginar como teria sido quando criança. A memória joga com a vida, brinca com seus tempos, é uma invenção poderosa.

A sociedade incomoda-se com infortúnios, mas, muitas vezes, queima suas tradições sem observar o valor da experiência. Vivemos catalogando e classificando, aproveitando os armazéns tecnológicos. A acumulação não tem fim, firma disputas políticas e financeiras. Há quem se coloque como dono do que passou. Não faltam elaborações intelectuais dogmáticas. No romance de Auster, temos elaborações incríveis que fogem do lugar comum. A cultura não é um amontoado de coisas expostas numa vitrine pública. Se não sabemos atribuir significados às construções da história, aprofundamos o desfazer da memória e da experiência. A solidão não se afasta do ir e vir de cada  existência. Não é uma fatalidade.

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