Memórias, tradições, (des)continuidades

O conhecido e o vivido estão presentes. Sofreram desgastes, redesenharam máscaras, mas surpreendem e não se renderam ao esquecimento. Não se imobilizaram, fluem com a história. Quando há a renovação dos paradigmas o passado não se ausenta. Partir do zero é uma fantasia. Existem confusões, descontroles, mas até a famosa criação lendária do mundo tem suas argilas. É importante observar que as tradições colaboram na produção das reflexões. Não importam que tenham a griffe da pós-modernidade. Os mitos passeiam pelo mundo, Marx esquenta os críticos ao capitalismo e Nietzsche permanece arranhando os bem comportados.O que seria da modernidade sem os antigos gregos e romanos? Portanto, a trilhas dos significados é ativa e assanhada, com disfarces e geometrias pouco cartesianas.

No mundo da velocidade, fala-se muito de memórias. Há debates, filmes, ensaios filosóficos, pesquisas históricas, profecias invertidas, preocupações acadêmicas que rendem congressos e teorias. As novidades nos cercam, porém o tempo tem sua extensão, as saudades e as nostalgias gostam de aconchego. A urgência do aqui e agora pode tramar armadilhas. O futuro atrai, puxa o ânimo, multiplica ficções, acende promessas, contudo seus deslocamentos seriam impossíveis sem o diálogo com as recordações. Como caminharia Hegel se deixasse de lado Aristóteles e Platão? Que revolução artística traria Picasso sem as inspirações do século XIX?

O equilíbrio é, sempre, instável, porque os tempos não se fixam e os desejos não apreciam limites. As modificações costuram as vestes remendadas e agitam quem se acomoda com o modismo de vitrine. Não se revive as relações como elas aconteceram. A fotografia distorce, singulariza o olhar, não é a cópia fiel da fragilidade do real. A imaginação arquiteta seus templos, não apenas com objetivos do além. Ela subtrai verdades envelhecidas, atiça a invenção, risca as cartografias fora de uso. Não existe descanso na comunicação das ousadias, embora certas repetições causem suspeitas de que a sociedade não renega o que fugiu.

A tecnologia poderosa da cibernética não esquece a memória. Arma-se para o mercado com  sofistificados computadores e  máquinas de jogos fantásticos. Desafia inteligências e fabrica sonhos de consumo. Os disco rígido é assunto de comentários e deletar se tornou um verbo do cotidiano. Há acervos, inúmeros relatos escritos, organização de grandes bibliotecas que testemunham o fazer diário dos historiadores. No entanto, o ritmo é  outro, a rapidez exige raciocínios distantes das largas fichas de leituras. Basta um clique e lá está a corrida para interpretar o vaivém do passado.

Na sociedade do descartável, há pressa nos negócios e saberes efêmeros, tudo com o perfume do instantâneo e do inesperado. Por isso, a descontinuidade toma conta das polêmicas e desfaz os argumentos de quem se agarrar nas tradições. Talvez, os exageros terminem por tumultuar as escolhas. Os acordes de Vivaldi não perderam seus encantos, nem tampouco Philip Glass elege a monotonia como base das suas composições. O problema é firmar as diferenças, sem estabelecer classificações inquestionáveis. A dúvida mora no mundo, não abandona a história e se infiltra na construção do saberes. O  movimento tem ritmo, resta observá-lo.

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