Multiplicando os olhares e as escutas do mundo

O recolhimento, diante de tantas aventuras, é difícil. O mundo chama. Quem não ouve os aflitos querendo repartir incertezas e descompassos? O sucesso caminha com o espetáculo. Muitos não sabem viver sem ele, deliram com as decisões do Big Brother e transferem suas energias para as telas de TV. A exposição não escolhe lugares. Pode acontecer nos botecos escondidos das esquinas ou no café mais sofisticado da cidade. É ordem não se intimidar e mostrar que a felicidade é uma calça azul e desbotada. Nem todos seguem as ordens, porém são atiçados a não desperdiçar o tempo e a desadormecer. As notícias andam soltas, incentivam conversas, estimulam exemplos, confessam fracassos. Um garoto líbio afirmou que aprendeu a matar jogando videogame. Que mistura terrível!

O importante e o inesperado se tocam com a mesmice. Temos, então, que abrir os olhos e não hesitar. Nada de desconfiar das dúvidas. O pior é achar que está tudo bem e Deus espera, sem ansiedade, o dia do juízo final. A sociedade pede agilidade, no entanto há os instantes de contemplação. José Alencar morreu. Houve muitas reverências e lembranças da sua luta. Dividiu o poder, com Lula, e firmou posições. Não será, facilmente, esquecido. Seu sorriso passava ânimo e não cinismo. Seus gestos e palavras ensinam. Os constrastes, contudo, não saem do mundo. José Alencar se vai e os fãs de Maria vibram com os reais que ganhou na Globo. Contrapontos para celebrar que as contradições possuem lugares e somos atingidos pelas suas manobras incessantes. Não dá para comemorar apatias e indiferenças.

Neymar usou seu talento e jogará, brevemente, num time europeu. Milhões de euros e libras transformarão, mais ainda, sua crescente fama. É, talvez, garoto, não daqule tempo que  amava os Beatles e os Rolling Stones. Está na crista da onda, mesmo assim não faltou racismo para tentar ofuscar sua grande exibição. Não houve alarde. Neymar nem quis barulho. O mercado cobra comportamentos, seus empresários dançam bolero, tango, música sertaneja. O que vale é manter a vitrine bem arrumada. Os direitos humanos  aguardam outros momentos e a rebeldia fica para horas de perdas e não de vitórias. O futebol tem administrado seus sucessos, como exigem as sagacidades capitalistas. Vejam Ronaldo, Adriano e Ronaldinho, desfilando pela mídia com fôlego impressionante.

A multiplicidade não impede que as opinões circulem. Ela incomoda, pois rompe as cores sombrias. Quem mora debaixo da cama, não conhece o sonho, nem o pesadelo, nem o perfume da amada. A história borda desalentos.Mas isso não é tudo. Quem aposta no discurso do apocalipse ? Ele não causa constrangimentos e anemias ? O movimento desfaz o pessimismo, envolve os descontroles e acena para visualização de mudanças. O humano não para. A cultura não tem sentido determinado. Os sentimentos produzem lágrimas e festejam encontros. O samba, de uma nota só, é figuração. A vida é sinfonia aberta, para todas as invenções e todos os desfazares. A travessia não se esgota numa solitária geometria. Ela se resedenha, sem dificuldades. O estranho é não escutar as dissonâncias. Elas nos trazem novos ritmos.

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6 Comments »

 
  • Valerio disse:

    Antonio,em minhas lembranças a frase citada acima era incluida numa propaganda da US top: “liberdade é uma calça velha, azul e desbotada”.

    Vale recordar que esse slogan convivia pacificamente com o silencio ensurdecido e brutalizado imposto pela ditadura Médice.

    Hoje se não há uma censura oficial a restringir o noticiário, isso não significa “liberdade” de ser informado. Antes permanece, sorrateira, a conveniência da hora a nos impingir um misto de informes edulcorados a notas graves e solenes.

    Não obstante, antes como agora, sempre dependerá de cada um dar vazão à sua curiosidade. Aquela curiosidade que acaba desconfiando e, última instância, se pergunta: “o que isso quer dizer?”

    Te sou grato por dares rédeas à reflexão.

  • Monique disse:

    “O estranho é não escutar as dissonâncias. Elas nos trazem novos ritmos.”
    Antonio,belíssima construção!!
    De fato, as controvérsias e diversidades de notícias, fatos, são temperos essenciais para nosso desenvolvimentos crítico diante do mundo que se apresenta…
    José Alencar parte para um eterno exemplo, já Maria(BBB) entra para o efêmero….dissonâncias….rítmos da atualidade!

  • Monique

    Não deixaremos de conviver com as contradições, mas temos que ficar atento às armadilhas.
    abraço
    antonio paulo

  • Valerio

    É a reflexão que nos ajuda. Sem ela, ficamos soltos, achando tudo a mesma coisa. A censura tem muitas sutilezas, não há como negar.
    abraços
    antonio paulo

  • Christiane Nogueira disse:

    Um dos maiores problemas da democracia está na liberdade excessiva e desenfreada que ela confere às pessoas. Os especialistas, apropriando-se do discurso alheio, destorcem conceitos, trocam palavras, formam opinião, confundindo, muitas das vezes, liberdade de expressão com libertinagem de opinião. É em meio a esse cenário, onde as notícias andam soltas e a manifestação do pensamento circula sem a imposição de sistemas de freios e contrapesos, que o simulacro toma forma.
    A celeridade da vida fere de morte a sensibilidade, indetermina o sentido da cultura, redefine caminhos. Tudo não passa de uma constante refazenda. Tudo que é sólido, como definiu Marx (somando a um conectivo e a um advérbio), ou não, termina por se desfazer no ar.

  • Christiane

    Talvez, o problema maior seja ressaltar muito a ação da mídia e não a reflexão. Fica tudo muito na superfície, sem apoio de argumentos consistentes. Então, o descartável domina.
    abs
    antonio paulo

 

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