Não esqueço das mil e uma noites, nem de amar Scherezade

 

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Estava triste, quando li as histórias de Scherezade. Ela não me tirou a tristeza, mas me dei um toque de que as coisas acontecem sem nunca se livrarem das fantasias. Estava vivendo uma partida que deixava sonhos ativos. Não queria dormir de vez, porém precisava de descanso. Fiquei imaginando e terminei buscando  algo. Senti o gosto da magia, a morte batia na porta da contadora de história. Ela não desanimava. Conhecia um mundo que não conhecia. Não custava se apaixonar por ela, como a historiadora do meu encanto.Nem posso adivinhar o perfume que a protege.

Sempre fui desconfiado com os racionalismos e o que é exato não me fascina.A embriaguez se veste da vida quando há despedida, move as batidas do coração. Não existe dificuldade em observar a heterogeneidade. Há quem se engane e se distraia com o princípio e o fim. Acho que tudo se toca, amanhã nem sempre sugere um dia de mudanças, porém o sol aparece e manda notícias. Nunca somos os mesmos, nem raízes absolutas de nada. O corpo nos acolhe. O sangue flui, as palavras investigam o nome das identidades sem rumos. É a possibilidade que oferece o limite e o descaminho.

Scherezade sentia que podia ultrapassar o extraordinário. Tinha a sedução que inventava deuses, duendes, ladrões, gênios. Não se impacientou, nem confundiu a noite com o dia. Sabia que as cores invadem todos os horizontes, a geometria das formas é uma gramática incomum. Portanto, nada de sustos, nem profecias. O amor aparece, se consolida, contudo não é escravo da eternidade. A beleza salva e a solidão possui suas armadilhas. Portanto, mantenho meu tapete voador e suspeito de quem não saiu do paraíso.

Assim, fui seguindo a história. Sou discípulo e amante de Scherezade. Não neguei a tristeza, porque há um poema que se guarde em cada tristeza. Naveguei, escutei, contemplei. O porto é também um lugar de chegada, mas podia mergulhar no mar e não me esconder das tempestades. Para que agitar o medo, se as sereias cantam e a luz não consegue disfarçar a sombra? Aprendi. Não invejo Ulisses e me lembro sempre de Camus. A rebeldia nos coloca no mundo, mas são as histórias que nos balançam e nos adormecem. A levitação desfaz a dor mesquinha. O lúdico se assanha, buscando aquecer quem fugiu do frio.

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4 Comments »

 
  • claudio ferrario disse:

    não lembro como me sentia, quando li as mil e uma noites, mas, no próximo maremoto, quando as ondas da tristeza teimarem em me sufocar com seus caldos, vou me lembrar de tê-las ao alcance dos olhos e do corpo. bom domingo, amigo.

  • …Sharazade faz parte dos contos árabes que se misturam na nossa cultura, no nosso vocabulário. Ela estava destinada a ser morta e agiu com precaução, ousou enfrentar o seu algoz com saberia para ganhar o direito a vida, pois se engana quem acredita que os nossos corpos são livres, eles não são. Todos os dias, lutamos para alcançar uma ideia de liberdade, uma possibilidade de estar no mundo de forma mais plena e bela, nem sempre conseguimos, mas todos os dias novos desafios nos são lançados e o conto da jovem e bela Sharazade está lá, se eternizou no tempo, para dizer que o caminho da liberdade precisa ser procurado, encontrado e ele não nos dado, de forma fácil e tranquila, em muitos momentos do nosso viver e do nosso sentir. Logo, é possível especular que a plenitude do existir é isso, isso o quê? É encontrar formas e caminhos possíveis para seguir em frente, Sharazade seduziu o seu carrasco e lhe deu um filho, inventou e plantou o amor onde só existia hostilidade, ela usou armas possíveis e transformou o feio no belo, nos ensinando que é preciso INVENTAR saídas, por mais dura que seja a nossa realidade…

  • Clarisse Pereira disse:

    O extraordinário é sempre necessário para criarmos caminhos possíveis e possibilita encontros. A beleza e a história nos ajudam a seguir. Belo texto, trouxe uma reflexão importante. Boa semana!

  • Clarisse
    Você sempre com muita sensibilidade.
    boas energias e abraço
    antonio paulo

 

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